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Era um par de óculos

Abraçar é algo muito sério – não se pode encostar dois corações por aí e achar que nada, absolutamente nada, vai acontecer depois disso. Olhar nos olhos é ainda mais perigoso – tem coisa mais cristalina que uma conversa sem filtros? Dizia tudo, olhando – e nada, porque ela sequer entendia. Era um rosto novo, virgem ainda de interpretação, e estava ali – eu tremia de medo, e no entanto gostava como já se fosse meu, de tão burra.

Essas coisas exigem uma quantia de medo, que eu nem sei dizer qual é, para que as certezas não machuquem as surpresas. E no entanto, precisa ser espelho, bem forte – refletir falhas sem fragilizar. É por isso que gosto de fixar o olho no bicho que vai me atacar – o problema é que as cobras possuem órbitas tão miúdas, incertas: é a arma delas, a pequenez. E mesmo que fossem enormes, seria um desperdício – é natural que gente alma-podre tenha pouco espaço para demonstrar ruindade. E o jeito mais certo de encará-las é apertando bem as pálpebras, deixando escapar só um filete de olho, só uma parte de você, e do que quer.

Essa gente já faz estrago demais utilizando apenas as frestas, quem dirá com a porta toda aberta. Talvez seja por isso que exista gente que morre de olho arregalado – no susto, abrem o que deveriam manter escondido, travado. Tive que confiar – havia um par de óculos pra proteger o que tinha de mais misterioso, e eu esperava algo refletir, então.

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