04:46



Gonzeaux: o gênero (forçadamente) invisível

Não adianta mais disfarçar: os apelos crescentes aos chamados "relatos humanizados" vem colocando o jornalismo e a literatura em limites muito próximos no desejo de variar o modo de escrever, e sejamos sinceros, essas tentativas não nasceram hoje. Isso é bom, dá uma pontinha de esperanças aos aspirantes a jornalistas que temem passar o resto da vida receitando o lead fastidiosamente, como médicos cansados que constatam o óbvio: é gripe, próximo!

Eis a chance: é nesse intervalo entre a tentativa e a busca de metodologias diferenciadas, que enxergamos a oportunidade de introduzir (à força, que seja!) o Jornalismo Gonzo como ferramenta facilitadora para essa prática, um exercício na sensibilidade de contar histórias, porque não?

O que incomoda é visualizar o Jornalismo Gonzo como um gênero esquecido precocemente (tendo em vista a sua criação, nas décadas de 60 e 70), ou até mesmo ignorado, difícil de explicar por não ter a notoriedade esmagadora do "jornalismo diário", tido como mais importante, presente em unanimidade nas grades curriculares das faculdades de todo o país e repetido metodicamente nas empresas, acrescidos de linhas editoriais ferrenhas, bancadas por uma mistura corrosiva à qualquer aspirante a jornalista independente: poder público e comercial.

É triste, mas para as universidades, o Gonzo não existe. Ao que parece, o empenho exigido por essa prática, que "produz o sentimento de estar dentro de uma cena descrita" inibe e assusta a lógica mercadológica de produção de notícia, e é com essa desculpa que os próprios educadores colocam a idéia de Thompson como algo impraticável, inviável e o pior: dispensável.

Talvez esteja aí uma pista para compreender porque o Gonzo ainda se apresenta como tentativas tímidas, quando não ridicularizadas pelos professores, dada a sua "impossibilidade". Uma vez desconhecendo o criador, o excêntrico Hunter S. Thompson, a criatura – o gonzo, padece com a invisibilidade. "Jornalismo o quê?"

É a primeira pergunta, seguida de caretas na face e escárnios típicos de Dr. Pernóstico que precisa engolir as teorias em moda e salivar raivosamente nas salas de aula. E "pra quê?", cutuca o comodismo. Diante disso, a esperança travestida em Thompson responderia com cigarro em bico: vamos tentar, ora. Tentar!


* Texto publicado originalmente no Observatório da Imprensa. Uma extensão desse tema foi publicada e debatida também no Blog da Jornalista Valdívia Costa.

Veja também

0 comentários