A mulher que não enxerga bem

07:51


Minha missão era basicamente procurar desgraça. Acidente, gente morta, estupro, droga enfiada nos buracos que você imaginar. Sim, do corpo. Sim, cabe coisa que nem o capeta imagina. Hum rum, celular & o carregador junto. Porta de delegacia, ficar presa dentro de necrotério de hospital, pular por cima de cadáver, ver gente chorando a morte de corpo duro que está ali na rua com a cabeça cravada de bala, tudo isso foi ficando normal e foi aí que eu percebi que eu não fazia mais jornalismo. Narrava as merdas e só. Mas foi a história de uma bichota viva que me deu medo. Muito mais do que procurar documento em bolso de bandido morto,  muito mais do que entrar em presídio, muito mais do que tudo. Eram tantas as especulações sobre ela que eu sequer poderia confirmar se aquelas versões se encontravam, mas o que importa dizer é que aquela mulher não era comum. 

Só o fato de ter tantas histórias surgidas em torno dela já era um motivo para ficar curioso: poucas criaturas hoje em dia são dignas de nos dar o trabalho de imaginar sobre a vida delas, mas acredite, aquela morena de cabelos cacheados, seios pulando do decote e pele chocolate valia qualquer queixo caído. Não porque era bonita (isso é o que de menos precisava ser), mas porque era interessante - e isso era tudo. 

Sheyla*, de 24 anos, morava no Sítio Lucas, aqui em Campina Grande. Havia sido presa ano passado: sequestrou um bebê e trocou a criaturinha por uma televisão, sutil desse jeito. Antes de trocar gente por eletrodoméstico, ela trabalhava no Circo Gold, instalado pelas bandas do Bairro de Santa Rosa (nessa hora imaginei que ela fosse trapezista, mas não consegui contato com os familiares para que eles me informassem qua era o número dela). Mas aí, ela foi demitida. Era conhecida como 'a galega do sítio', mesmo tendo os cabelos castanhos. E nessa hora inevitavelmente pensei no pior: ela usava peruca? Minha imaginação fervilhava, explodia, eu queria tanto vê-la, perguntar porque um circo, e porque trocar a criança por algo que possa ser desligado por um 'pitoco' e, céus! Eu queria olhar nos olhos de uma mulher interessante e verdadeiramente corajosa, ao menos uma vez na vida. 

A última façanha da moça foi sequestrar um taxista. Fingiu ser cliente, sentou-se no banco de trás, tirou um punhal e a certa altura do trajeto imagino que tenha dito alguma coisa no pé-do-ouvido do cabra e fim: o homem foi encontrado morto com marcas de estrangulamento. Ela foi presa, confessou o crime, e na minha cabeça inventou uma história, pra sempre. Curiosa feito 'menino ruim', fui procurar o significado do nome Sheyla: 'Aquela que não enxerga bem'. Uma mulher que era cega havia ocupado desde então um lugar no meu quengo, um lugar somente dela, de exemplo: fazer o que se quer, como quiser, com quem se quer - mesmo sem enxergar um palmo à frente do nariz. 

 * Ocultei o sobrenome por questões de segurança... minha mesmo! Haha! Baseado em factuais reais, colhidos durante um levantamento de dados policiais  quando eu trabalhava como produtora na TV Correio :)

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