07:49

(Ontem)

Eu poderia explodir em mil pedaços cintilantes, que fossem caindo tímidos e serenos, cortando o ar com a mesma fragilidade de uma criança pertubando a calmaria e o cochilo improvisado de uma poça d'água diante do sol. Mas era cedo, como quase tudo na minha vida. A situação era recente como o golfo de um bebê - azedo e somente tolerado pela mãe, que acha natural e bonito, até. Eu temia espantar aquilo, que nem tinha nome, para longe de mim. E via que era besteira, porque nem o poder de tanger eu tinha: era só esperar que aqueles bichos decidissem estar no meu 'terrêro' ou simplesmente abusarem, irem embora.

Eu deitava a cabeça sobre aquela barriga gordinha e ouvia o barulho de gente funcionando, líquido fluindo, vivo. Imaginei, como imagino quase tudo, que todo o barulho que se faz aqui fora é, antes de tudo, um pedido que vem de dentro, e entendido como um motivo para expor o que fica escondido na gente.


Me aconselhava, todo o tempo: 'A gente não teme aquilo que não quer, e só me faz tremer aquilo que desejo'. De todo modo, foi fácil me comportar diante de gente que eu não queria conhecer. Mas eu gosto tanto de ver gente - de fixar o olhar em alguém e imaginar a vida toda que se passa ali por baixo, escondida. Desde então não quis nada que já não fosse meu, por isso não precisa sufocar o que é seu debaixo do suvaco. Não é do meu feitio roubar nada, de ninguém. O que é meu chega por acaso, muito embora eu tenha fixado antes o olhar naquilo e desejado, desejado, até doer.

Veja também

0 comentários