Ressabiada

12:46


Tenho estancado as pessoas como quem estanca sangue nas feridas mais nojentas. A agonia é tanta que quando alguém começa a empombar eu pergunto quase-educadamente se devo ir embora e antes mesmo da resposta eu já tô na porta, de mala, cuia e olhar além muro. Era certo: eu não queria ser vento soprando em arranhão de ninguém, porque também já caí um bocado de vezes, e sei o quanto incomoda o joelho ralado. Talvez seja por isso que eu não queria ser talho, buraco ou pereba, mesmo que alguém procure por isso arriscando equilíbrio no prédio mais alto, mesmo que alguém me peça. O meu defeito (fazendo de conta que tenho só um), é querer tudo ao mesmo tempo, logo, urgente, desembestado. E no entanto, meu altruísmo forçado (nascendo mais inútil do que tudo no mundo) me obriga a esperar, a abrir mão, a dizer "então, tá". Eu não compreendia as pernas enroscadas, os cheiros, barulhos miúdos.

Descobertas tão revolvidas em si mesmas que não poderiam existir realmente, porque não tinha como provar. Só existia o que era visto, e eu não conseguia ver nada, só imaginava, era muito sensitivo, era a fumaça do cigarro que eu só queria quando bêbada: inútil e de vez em quando. Aí eu sentei num banco, tive sono, fiquei ansiosa e apostei comigo mesma que não levantaria o rabo dali enquanto não fosse disciplinada. Travo as pernas, finco o assento do tamborete com as mãos, até que os nós dos meus dedos fiquem dormentes de força, fecho os olhos até que eles fiquem com as pálpebras enrugadas eu me prometo: não mais! Nunca mais! Uma vírgula de dúvida e eu começava a embrulhar tudo novamente, eita... não, mais! Mais! Mais! Preciso dar um jeito nessa merda! 

Apesar de todas as tentativas de travar os dentes e não deixar escapar uma única lágrima sequer, a parte de mim que não cresce nunca me avisa daquilo que eu não posso e nem devo escapar: da vontade de sair correndo, ir pra casa, encostar a cabeça no travesseiro com meu cheiro e deixar sair o que me sufoca. E dormir, como durmo sempre, desde que me entendo por gente - deitar como uma castanha miúda, esconder as mãos por entre as pernas e respirar correndo, fugindo em sonho do que me mata na realidade, ficar dando choque. Descansar e acordar agindo como se tudo tivesse sido resolvido. Mas tem algo que acontece antes dessa coisa toda, e então eu choro - não há um dia sequer que eu deixe acumular poeira nos olhos: é preferível estar com as bilas inchadas e patéticas, mas cristalinas, do que camuflar dor e sair por aí com olho fosco.

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1 comentários

  1. Que texto lindo. Me encantei, pelo texto e por reconhecer você em cada linha, e às vezes me ver nele também, sentir os mesmos embaraços.
    =*

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