Assim falou Zaravó

11:11

Foto - quintal lá de casa, 2009

Como diria vovó Irene, de bengala em punho e suas banhas caindo pelas ancas, "os cães ladram, e a caravana passa". Tá, ela não ia usar palavreado bonito assim, apelaria pelo "cachorro late só", depois daria uma cuspida de catarro esverdeado no lenço e chamaria por Zuza, o avô mais paciente de todos, para que lhe servisse um talho de queijo de coalho enorme, que ela sabe que está proibida de comer. Tenho remorso por ter me desprendido deles depois da infância. Que fascínio por esses ditos-de-terreiro! Coisa que velho diz com boca banguela e desconfiada, papada enrugada balançando experiências e braços tostados de sol.

Por devoção e fidelidade às minhas férias no sítio, lama na canela, santuário velho de madeira rodeado de terços coloridos, retrato pintado na parede com moldura carcomida pelos cupins e passeio de cavalo manso puxados por Seu Zuza com chapéu marrom e botas, eu lhes digo: confio mais na reza deles, dão força como ninguém. É certo que me faltam alguns domingos no terraço da casa de vovó, olhando pra o jardim onde estão enterrados os umbigos de todos os netos. Ritual um tanto macabro, trazido por vovô no emaranhado de costumes vindos do Variado, fazenda de Galante onde a maior parte da família foi criada. Ele diz que é pra dar sorte, e eu confio cegamente nisso.

Meu "imbigo" ficou perto de um pé de pipoca, ou sei lá o nome da planta. Batizei assim quando criança porque as flores pareciam com milho estourado, bem alvas, lindas. O fato é que os cordões umbilicais de todos os netos deles estão lá, colhidos depois de vovô muito atucalhar que eles caíssem, ressecados, para depois fixá-los na terra, urgh! Pra curar todo mal, mainha não contava conversa: o remédio era pegar três ramos da palmeira e entregar a Irene, que de terço em mãos me sentava de frente, mandava eu fazer o sinal da cruz e começava a pai-nossear baixinho. Eu cochilava um monte de vezes, e quando acordava parava pra prestar atenção no dente de ouro dela, reluzindo, sumindo-aparecendo nas entre-rezas e olhos cheios d'água. "É mau olhado", diagnosticava com precisão religiosa - e então ríamos juntas: eu, banguela do dente da frente, e ela com seu sorriso gangster.

Por fim, não esquecerei da ignorância precavida do meu avôhai, que selava os cavalos com capricho, e que entre uma porteira e outra, me avisou: "Se você avistar alguém morrendo na sombra, minha filha, pegue ela e puxe pro sol. Se ela tá ali, é porque merece". Despedacei meu coração milhões de vezes, vovô, não tenha dúvidas. Mas aprendi, sim! Só estou deixando na sombra as pessoas certas, que possuem umbigo enterrado no chão da minha memória.

(Ligia Coeli, pra Vovô Zuza e Irene - 2009)

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3 comentários

  1. Que linda lembrança me veio à memória!
    Lembra de bricar de "academia" quando chovia no s´tio e dava pra riscar o chão com uma vara?!

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  2. Saber dar valor as pequenas coisas da vida é o que nos faz crescer em todos os sentidos. O valor da família é essencial.
    Acredito em vc e amo vc tamanho do céu, vc me consola, vc briga comigo, vc é o ponto de luz quando não a vejo com exatidão.
    Lígia te amo, e a saudade do nosso tempo de criança, parece que lateja a cada dia que lembro de certas coisas do tipo, gravar o -"psiu, olha pra cááá!!", nadar de caavalo no Variado, eu descendo no cavalo destrambelhado, tomando banho na cachoeiira que escorrega... ain são coisas como essas que me fazem ter o amor que tenho por ti. Sem falar no orgulho que eu sinnto da minha Prima-irmã ♥

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  3. Lígia,

    De certo, seus textos são os melhores para fazer referência à infância de nossos primos e à minha... Antes mesmo de vc nascer e ter os cabelos cortados - curtinhos, negros contrastes com a pele branca, cacheados - o pé-de-pipoca já era pé-de-pipoca e a gente já se acalantava nas orações de vovó. Eita saudade! Hoje, passado tanto tempo e depois de tantas pipocas nevarem-se no chão, vemos uma parte de nós ir murchando, sumindo de nossas vidas devagar, sofrido, doído... Desejo que nossos filhos possam guardar de nós e de nossos pais, as bonitas lembranças que temos guardado de vovô e vovó. Mesmo sabendo que "murchar" e cair sobre a terra é o destino de todas as pipocas, sinto hoje a grande dor de ver o galho mais frondoso daquela planta adoecer e isso doi tanto!
    Mas é graças ao seu texto que segundos de dor se tranformam em horas de saudade! Obrigada pelo fiel registro de um pedaço tão bom de nossas vidas! Te amo muito! E tenho um "orgulho da gota" de tu! Bejos!!!

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