Entre o peito e as pernas

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Foto: Dona Cearense, Feira Central de Campina (2008, mesmo ano do texto)

Dizia com um certo rancor, balançando o cachimbo - como toda rapariga tinha que ser, ela era: só gemia de dor, só chorava de medo

Aprendi a cativar desde muito cedo o respeito afetuoso pelas putas, velhos e bêbados: em essência, era o que todos nós seríamos um dia. Nem que fosse por um segundo, nem que fosse por pensamento, ou por vontade escondida pela educação posta à força. Era a medida preventiva aquela de aprender a cruzar as pernas, pra proteger não sei o que, não sei de quem: engano dos brabos. Cruze os braços, criatura... proteja o que há dentro do peito! Imoralidade maior não é perceber volúpia de olhos tarados subindo por entre-pernas, descobrindo pedaços de pano minúsculos que escondem desejos semi-animais, quase nojentos: pior é a dor de sentir transpassando a carne do músculo que bate existência líquida e quente.

Pensei que era conversa de gente besta essa de dizer que coração machucado dói, eu achava impossível pensar que uma coisa abstrata pudesse fazer doer coisa que pulsa sem nosso consentimento, mas eu estava enganada. As situações nos puxariam para aquele lugar, seríamos tragados pelo instinto de ser sozinhos, e eu sabia disso. Mas enquanto pude, alimentei meus sonhos com migalhas de sentimentos jogados, orgulhosos. Mas chega um dia, amigo, em que a gente levanta a cabeça e para de colher o pó das coisas atiradas sobre nós. Levantamos calmamente o olhar, vemos os pés sujos, nos assustamos. Subindo mais os olhos, enxergamos calça jeans claras, e subindo mais, e mais, as mãos grossas, e o terror maior acontece quando já estamos olhando fixo: o rosto.

Aquele rosto ria de mim de um jeito que me senti envergonhada, o que eu pensei que era afeto, me veio como pena. Tremi. Levantei meio sem jeito, e ainda não me ergui. Mas estou tentando, com os cabelos meio assanhados e sentindo algo se estilhaçando dentro de mim em explosões secretas, deduzi: percebemos que a altura de quem nos magoa não é tão intensa, mas ainda assim, suficiente pra deixar a gente ali, no chão, comendo restos, vivendo do que sobra, do que dá pra ser nosso, do que não fará falta para quem nos dá, do que não se preza.

Assim as coisas terminam: como a trajetória de uma velha puta e ocasionalmente bêbada, que chega ao final da vida achando que ela deveria ter sido vivida exatamente como foi, mas que não teria coragem para refazer o percurso. O que sobrou de vontade, será gasto daqui para frente. As tentativas esgotadas, deitada na cama, ainda esperançosa por amores pagos e comprados, pelas mentiras ditas ao pé do ouvido, saindo de bocas tortas. Vive de suores que secam separados, convive com doenças que só ficam entranhadas nela, com medos que só se alojam nela, com as imundícies que saem do corpo dela, com o que plantam dentro dela, com ódio, com descaso e fricção forçada de quadris.

Olhei para aquela mulher e não precisei de mais nada: era um depósito de coisas abandonadas, que precisavam ficar escondidas, mantidas em segredo. Tudo o quanto tinha guardado entre as pernas se resumia a choro de mulher contido, menino morto com arame, gozo de macho e histórias pra contar. Um tesouro que a fazia mais forte do que todas as outras - exatamente como eu queria ser um dia.

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