Era a chuva, então

06:43

Foto: Em Boqueirão, 2007

Gosto de observar esse jeito arrogante que a chuva tem de deixar todo mundo andando nas ruas de cabeça baixa. É uma pressa inútil, como se estivessem envergonhando-se de algo, ou fugindo do que a água chegando assim, tão de cima, faz lembrar: do nosso tamanho ínfimo ante o mundo, ante nós mesmos. É como se cada gotinha caísse do céu trazendo alguma mensagem secreta, vinda em envelopes cristalinos, que abrimos temerosos, tamanha a nossa consciência de que somos errantes. A chuva é mistério, tal qual segredo contado ao nosso ouvido, que faz os pêlos se eriçarem. É saudade contraída, é lágrima.

A água caída do céu por vezes faz papel de divindade, o Sertão que o diga. Chuva é motivo de festa, de missa e oração. A chuva consegue fecundar-nos com suas sensações. Para cada pessoa, uma gota com um sentido diferente.Às vezes as gotinhas caídas do céu nos servem para lavar a alma, no quintal de casa, debaixo de uma bica, ou inesperadamente, quando estamos indo ao trabalho. Mas a chuva só é bem vinda a quem não tem papéis nas mãos, medo de estragar a roupa ou desfazer-se dos cabelos impecavelmente arrumados. A chuva vem com esse propósito revolucionário de passar por nós e desajeitar tudo, modificar. Purga-nos a pele, ainda que venha extremamente gelada. A sensação assemelha-se a ter as pontas dos dedos enrugados e gélidos de uma velha cutucando as nossas costas.

É o susto de se revirar e simplesmente não reconhecer quem é ela, e ainda assim, ela nos dar um sermão incisivo, dizendo tudo o que temos medo de escutar, pensando que ninguém mais, além de nós mesmos, soubesse. Mas a chuva sabe, e nos faz reconhecer tudo o que escondemos de nós mesmos. Imagino que se a chuva fosse uma pessoa, ela seria justamente assim: uma pessoa muitíssimo experiente, capaz de desvendar nossos desejos com um único olhar. De tão sensível, ela acaba por estender até a nós, esse manto transparente de sinceridade. As gotas encostando-se a nossa pele, nos dão a sensação de pânico, como se tivéssemos um segredo revelado por alguém desconhecido. E um pingo basta para levar à consciência a notícia de que alguma coisa ainda não está certa. E cada gota vai queimando, bem fininho, indicando que há algum tipo de culpa que ninguém quer admitir. Engraçado, a chuva nos deixa com vontade de algo: abraço, cobertor, livro, filme, namorado, chocolate quente, sumir.


*Texto publicado originalmentena página de Opinião do Jornal da Paraíba, em agosto de 2008.

Veja também

1 comentários

  1. Obrigado por me deixar sem fôlego. Você não tem a mínima ideia do poder de suas palavras.
    Você transformou meu dia! [sempre]

    ResponderExcluir