Limpou meus olhos e morreu

03:59

Fotos: Valber, por mim - 2008

Era um trabalho: cumpria horário, suportava pacientemente a cara feia dos patrões, recebia elogio dos clientes e reclamações quando o serviço não ficava bem feito. Era ao ar livre, de bermuda e chinelos, com um rodo na mão que Valber de Melo, 24 anos, construía a vida com gorjetas dadas com má vontade: era limpador de pára-brisas. Vinha a pé do bairro do Mutirão até os sinais que rodeavam o Açude Velho.

Nove reais por dia de trabalho, tudo em moedas. As pratas eram conseguidas depois de muitos vidros levantados bem próximos do seu rosto, de carros acelerando em sua direção, de gente que pára longe com medo de ser assaltado, ou de acenos espalhafatosos das mãos de um homem reclamão que dirige confortavelmente seu veículo e não quer ser importunado por nenhuma cena que lembre o que é a realidade daquele rapaz. Trinta segundos: o tempo suficiente para que lhe mostre as habilidades que aprendeu quando esteve em Fortaleza, morando na rua com amigos. As mãos ágeis fazem o recipiente esguichar uma rala mistura de sabão e água, daí passa firmemente o rodo pelo vidro e pronto, serviço feito - nem doeu.

Ficava das sete e meia da manhã até à noite ali na Avenida Canal, serpenteando por entre os carros, e foi nesse intervalo que não agüentei de curiosidade: me sentei no meio-fio e esperei que ele notasse a minha presença, e nem foi difícil – com as caretas que eu fazia sob o sol, ele riu e puxou conversa. Contou que no final do dia ele juntava o ‘apurado’, o que foi dado pelos clientes: Biscoito de polvilho, rapaduras, roupas, cigarros e algumas frutas. Um pequeno tesouro se amontoava ali, e aquilo era tudo. Com esse trabalho ele já ganhou e já viu muita coisa esquisita passando sob o seu rodo. “Pode contar tudo mesmo?”, pergunta meio acanhado. “Ah, eu já vi um casal pelado dentro do carro enquanto eu limpava o vidro. E eles saíram sem me pagar”. Pilantragem dupla!

A maior quantia em dinheiro que recebera no sinal? “Cinquenta reais, presente de uma cliente”, ele explica enquanto mantêm os olhos fixos no sinal, esperando que feche para recomeçar seu trabalho. Viu que eu estava perguntando demais, e eu disse que era estudante de jornalismo, e então ele arregalou os olhos: ‘queria ver minha foto em um jornal’. Ele levantou, fez umas poses acanhadas, e eu ‘bati’ o retrato. Falei que tentaria colocar ao menos na Revista Laboratório da faculdade, ia falar com o professor, e saí com a promessa. Me despedi dele com um aperto de mão. Ele ofereceu-me um pedaço de rapadura, neguei rindo. Fui embora e aquele sinal que depois daquele dia nunca mais foi o mesmo: vez em quando passo ali catando Valber, tentando agradecer por ter limpado a minha vista. E limpou mesmo – não sobrou um grude sequer depois de ter chorado remorso.

Valber foi morto no dia 23 de setembro de 2008. Um tiro atravessou-lhe a cabeça quando ele se dirigia ao seu ofício simples de passar o rodo nos vidros dos carros, nas proximidades do Açude Velho, em Campina Grande. Chorei por não ter realizado um desejo tão simples dele: ver a sua foto no jornal. A única coisa que ganhou foi uma pequena nota, misturada com tantas outras notícias na página embaralhada por letras e manchetes.

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4 comentários

  1. Tão sensível e tão densa, Liginha. Como tu consegue? :~ Momocionei.

    Beijos.

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  2. Como sempre. Sem palavras.
    Como alguém pode ser tão forte e tão leve ao mesmo tempo?

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  3. Lembro dessa história, mas ainda não tinha visto o texto pronto. Ficou MUITO bom, irmã. Nunca li ninguém que pudesse descrever melhor os "nós na garganta" do dia-a-dia como você.

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  4. Parabéns, Ligia. É realmente um dom seu esse de transformar fatos do 'cotidiano' (pois diante de tantos similares terminaram se tornando, para muitos, banais), em textos que se tornam ricos ao ter contato com teus sentimentos. Tenho um orgulho grande de você. Abraço.

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