O meu tamanho

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Foto - eu, 34/35

A ideia de cultivarem algum tipo de ódio ou desprezo por mim nunca foi assustadora. Era confortável, genuíno e doce a ponto de me fazer perceber erros e observá-los sem remorsos, distante das premissas frágeis do que insistem em dizer chamar de amizade. E não acredito que isso seja por ruindade - é que nesse tipo de relacionamento, por mais que a gente tente ser sincero, acabamos por resguardar um pouco da frieza, dissimulando a nossa reprovação por alguma coisa e poupando o outro daquilo que a gente acha que pode machucá-lo, e achar que sabemos o que pode magoar alguém já é crueldade demais - prepotência em acreditar que sabemos o que é bom para o que se está além do que conhecemos.

De vez em quando somos simplesmente arrogantes, por vontade mesmo. Com o ódio, não: a sinceridade é brutal e indisfarçável. Me dá um gosto danado assistir esse jeito grudento e visivelmente enjoado de demonstrarem asco pela minha presença. Me irritaria se tudo fosse riso nas fuças - morro de medo de cicatriz em lugar errado. Aprendi que até pra o talho existe território marcado, e riso não é coisa que se põe em qualquer lugar. Por isso meu respeito à aspereza, e o temor ao fato de saber que alguém cultiva alguma simpatia gratuita por mim. É que eu sempre consigo uma maneira bem patética de fazer com que alguém pule de um extremo ao outro, tudo muito rápido. E o ódio anula essas estapas da decepção, e isso de certa forma me acalma. Não explico nada, não justifico nada, apenas calo e as conclusões brotam e se disseminam. Reajo calada por achar que é o jeito mais subversivo, e besta.

Eu sei que é covardia da minha parte, mas vale o não-esforço. Às vezes teimo em acreditar que existe uma espécie de culpa naquilo que demonstro, na verdade, esse sentimento é só um artifício ralo que tenta desfocar o verdadeiro sentido disso tudo. A palavra certa seria escolha. Eu escolhi assim, e me espanta que aos olhos das pessoas consideradas tão diferentes, tão à frente e superiores, eu consiga despertar uma espécie de saudosismo pela boa educação, pelo coleguismo forçado da circunstância do estar ali. Na verdade, esse espírito da boa vizinhança é uma denominação eufêmica do que poderia ser traduzido por falsidade.

Não tenho presença, sofro de espasmos geográficos do engano: estou ali porque parei de caminhar, e não porque cheguei onde queria. Não é uma afronta, não é uma opção, não é a tentativa malograda de demonstrar simpatia ou popularidade. É uma mera topada, um simples erro. Pisei torto e fui parar ali, meio sem graça, sem saber onde colocar as mãos, sem saber onde pousar os olhos. Uma sucessão de fracassos, medos que só são percebidos por quem me conhece bem. Era mais bonito assim: que as pessoas gostem de mim "apesar de", e não "por".

Estaria precupada se eu não estivesse sentindo algum tipo de dor por isso tudo. Mas eu sinto, e isso me basta, isso me explica, porque é na indiferença que eu me descubro. Eu não sei até que ponto a minha insatisfação vem daquilo que sou ou daquilo que me fazem pensar que sou. Aliás, nem sei se pensar nisso vale a pena, mas gosto de tomar notas e aprecio essa tentativa de instalar algum tipo de ordem naquilo que penso, mas algumas coisas precisam de pistas, e eu estaria sendo injusta se eu não fornecesse esse tipo de informação à quem eu desejo que me encontre.

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