Oração ao esquecimento

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Acordou como se o ar fosse insuficiente pra ser sugado pelas narinas: chorava, e sentia o catarro tampar os buracos-respirantes, fazendo-a falar fanha. A noite havia sido dormida aos pedaços. Não aguentava mais a solidão, e no entanto, não existia nada mais justo naquele instante do que estar sozinha. Ela queria ter dito "sim", mas já não havia tempo, aprendeu que segundas chances são promessas. Alguma coisa desmoronava ruidosamente: lembranças escapavam-lhe das prateleiras do quarto, mil cartas coloridas e falsas. 

Gostava de ajeitar o cabelo só pra ele, havia comprado o perfume preferido dele, gastou uma tarde imaginando como faria ele se interessar mais por ela: investiu pesado em tudo o que tivesse cheiro forte, porque sabia que isso o atraía. Mas era pouco, ainda. Talvez ela tivesse se transformado num emaranhado de odores, e só - ele queria mais, ela não tinha. Era quase uma Macabéa, ainda mais peba e ainda mais sem glamour, porque não nasceu das mãos de Lispector: foi gerada por mãos de macho que lhe afastava, por rosto barbado, ávido por novidade e juventude. 

E doía, porque ela estava Macabeando de tão velha: literalmente um cabelo na sopa. Ele via e não comia, porque detestava sopa e fazia cara de nojo sempre que via aqueles restos de comida na panela. Então imagine o asco: ela era um cabelo, numa sopa. Sentia-se um prato de líquido pelas bordas, oferecido a alguém que sequer tinha fome. Estava curiosa pra saber qual palavra, daqui pra frente, faria seus olhos brilharem. Mas aí morava a aflição dela. Esse era o tipo de dedução que nunca seria dela, era necessário esperar resposta com displicência e acaso. O que faria aquelas órbitas enormes brilharem? O que elas iriam denunciar? Não sabia. 

Mas esse par traiçoeiro de termômetros ia denunciar a qualquer hora, coisa para a qual ela sequer estava preparada. Escreveu um pedido e pendurou na parede do quarto: se você não quiser que eu volte, adestre melhor seu olhar. Procuro ainda maneira mais covarde de me machucar do que a sua boca vomitando adeus ferino e tórrido, enquanto seu olhar desmente tudo cordialmente. Havia vontade e esperança naqueles olhos castanho-miúdos, rodeados de sobrancelhas despenteadas, que ela fazia, meu Deus, tanta questão de separá-las. 

Como ela tinha medo de olhar para aquele homem e não enxergar o par de olhos apaixonados que tanto a encantavam: os olhos que a vigiaram com tanto afeto enquanto ela dormia. Sumiram, desde a última vez que ele fingiu que não a viu, que não a sentiu, que não chorou por ela, que fez questão de espalhar que estava em paz - ela se remoía de sensação-injustiça: não tinha perdão. Largos goles de cerveja, rock, bandas, moçoilas mais novas e interessantes, canções esgoeladas num banco de carona, amigos mudos, prazer repassado pelas putarias fáceis: ele não precisaria mais de mim, nem das minhas conversas de casório, nem das dívidas que meu pai carrega, nem dos meus traumas de infância, nem do meu sexo tímido, nem das minhas dúvidas. 

Foi então que ela respirou fundo e fez a última promessa: de você, meu caro amigo, travo a partir de hoje a batalha pelo esquecimento. O que pus com carinho, arregaçando o meu peito, arranco agora de dentes cerrados e unhas travadas. Mas é impossível me desfazer da paz que seus olhos me traziam, há de existir outros olhos que, mais sinceros, rezem por mim. Reze você também, se puder... amém!

(2009 // Ilustração: Javier Jaen)





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