Os causos da Rua dos Currais

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Fotos: Dona Cearense, por mim - 2008

Ela fica ali sentada. Ao pé de sua cadeira de balanço, alguns gatos sujos com olhares arrogantes. Ela fuma o seu cachimbo velho, vai soltando a névoa devagarzinho, folheando revistas com os dedos sujos, as páginas já amareladas. Dá pra ver tudo da porta daquela casa azul, que fica na Rua dos Currais, na Feira Central de Campina Grande. Dona Cearense, 67 anos, de cabelos tingidos de preto e gargalhada estrondosa, é figura conhecida na feira. Morava no interior, e quando criança, passava no trem e avistava a cidade de Campina Grande. “Eu ainda venho morar aqui”, divagava sem desgrudar os olhos da paisagem. E veio mesmo. Ainda adolescente, fugiu de casa depois de uma discussão com a mãe. “Agora eu vou ser puta mesmo”, e ficou decidido assim. Esteve muito tempo fazendo a vida, por assim dizer.


Agora ela passa o dia alugando quartinhos sujos a três reais e assistindo a entrada e saída de casais na Vila de Quartos em que toma conta. Tudo muito simples, depois de passar por uma cortina improvisada, você avista um corredor e ao lado, dispostos em fileiras, os cômodos com as portas azuis. Nada de luz nem água – depois do sexo, se quiser se banhar, tem um tonel e uma bacia ao lado da cama. O leito fica junto a uma das paredes úmidas, o colchão fino é forrado com lençóis grossos e remendados, uma cômoda velha para guardar os pertences dos clientes. O cheiro forte da comida dos gatos é amenizado com um incenso de canela. É aqui que muitas meninas perdem a virgindade a menos de quinze reais. Os homens vêm do interior e vão fazer a feira. Sobrando um trocado, compram o prazer forçado e o choro abafado de algumas mulheres. O preço é negociado ali mesmo, pelas próprias mães, que também vendem galinhas, sucata, garrafada ou verdura. Também se vendem, mas quando iniciam as filhas no trabalho, poupam-se um pouco, e só administram os negócios.

Foi assim com “Xuxinha”. Ganhou esse nome porque ao chegar à Rua dos Currais, aos quatorze anos, tinha os cabelos loirinhos, loirinhos. Entrava sob os tapas e socos da mãe na Vila de Quartos. Dona Cearense via tudo: tinha que ver, e cobrar-lhe o aluguel do quarto. Contra a própria vontade, era obrigada a desnudar-se a quem lhe pagasse sete reais. Só pôde parar de deitar-se com desconhecidos há um ano e oito meses, quando sua mãe morreu. Agora ela trabalha num bar, serviu-nos uma coca-cola quente enquanto conversávamos. Mas não pude tomar, faltou-me o apetite e o nó na garganta me impedia de fazer algo descer.

*Texto publicado originalmente na página de Opinião do Jornal Diário da Borborema, em 2008.

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