Para cada pé, uma história

06:11

Foto: Ligia Coeli - Calçadão da Cardoso Vieira, 2008

Andava longe o bruguelinho todo cabisbaixo, com o calcanhar rachado pela quentura do chão. Era no meio das fendas que a terra preta dava grude aos pés. Debaixo das unhas, o acúmulo da poeira dos terreiros, como que provando a sua infância bem gasta. Topada em pedra malvada, unheiro, bicho de pé e calo por causa da bota nova: tudo aquele pé tinha sofrido, porque pé lisinho não tem história alguma. É preciso um joanete, unha torta, um dedo faltando pedaço, esmalte vermelho descascando ou chulé, isso para se começar a conversa. É preciso tê-los inchados de tanto esperar na fila, agitados por cócegas ou ter as unhas roxas depois do banho gelado. É preciso tê-los enrugados pela água do açude, ou ter um calombo da gaveta de fotos que caiu em cima. É preciso enganchar o dedo mindinho no canto da porta, de vez em quando, e sair praguejando a dor. É preciso fraturá-lo depois de pular o muro, ou cultivar as cutículas para que possam ser levadas até a boca num momento íntimo de imundície.

Tem que ter sido cortado por caco de vidro no chão, arranhado com lata e coçado por urtiga. Tem que ter sido escaldado, lixado e esfoliado pela areia da praia, além de ter sido escorregado no lodo das pedras da cachoeira. Tem que ter pisado em bosta de cavalo, bosta de menino, bosta de cachorro e pegar uma frieira braba. Porque a 'precata' do tempo vai sendo colocada com agonia, fazendo zuada no chão, e você vai chorar por isso. Vem fazendo chiado de coisa arrastada, caminhando com preguiça. Porque é sempre assim: chega a hora de guardar os pés, e cada um que manifeste o seu desejo de estar fora. É preciso machucá-los (tanto, tanto!) antes de ter que sufocá-los num sapato.

Veja também

0 comentários