Uma mulher de Chico

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Texto: um presente de Jocélio de Oliveira

Numa noite ela permitiu-se sonhar e a partir da aurora seguinte, nada foi mais importante que isso: era seu amor. Mas um romance que se permitiu crescer, “tomar de conta” ao longo da vida, “apregou-se” na alma.

É uma mudança nada sensível. Saltam os olhos vivos que contrastam com os pés entortados e sugerindo um encontro entre eles. Contrastam ainda com o relaxar da coluna sobre o resto do corpo, como quem reconhece a derrota no desleixo de si mesma. Mas brilham os olhos. Sua euforia ocular sublima o supérfluo de sua vida porque ela surpreende mesmo quando faz tudo sempre igual.

O sábado de abril foi escolhido para a soltura. Partiu da camponesa distância urbana da cidade para o encontro da vida nova com a nova vida. Encontrou em si o vínculo com dois novos amores, nada humanos. Achou a primeira e única vantagem da maturidade: pode mandar e si e arcar com suas conseqüências, necessidades e desejos. Depois disso, adormeceu chorando o choro do autoconhecimento.

Ensinou-me a ler e a ser, mas não aprendeu a nadar. Tanto que por vezes se afogou em mágoas, perdeu o norte em oceanos deveras salgado, aguado, mas no fim insosso. O mesmo que acolhera um doce mar de sonhos infindos, mas sonhos. Não apenas… Mas sonhos! Eu não a entendo e nem preciso.

Infligi-se dúvidas, mas é a mulher com mais certeza de seus objetivos que eu conheço. Um corte profundo na alma foi a parte que lhe rendeu deste latifúndio, por medo da solidão. A sentença agora vivida nada mais é, do que o cumprimento da regra 3. Mas só do comecinho, sem o escárnio advindo da terceira pessoa desse seu inconstante plural. Não por falta de merecimento.

Talvez treinar-lhe a vista ou os ouvidos não tenha sido opção. Mas o rompimento com a velha caverna faz total diferença. Afinal, a ousadia de se dispor atravessar o rio é reflexiva. Por essas e outras, “nunca subestime uma mulherzinha”. Porque ao levantar das redes da vida, ela sempre trás consigo uma novidade…

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