Casa da pancada (ou a peleja do silêncio só)

10:36

Foto: Em 2006, escrevendo lorotas

Havia os moleques de umbigo estufado, trajando apenas calções, com olhares-urubu. Estavam em círculo em torno de uma lata. Curiosos, atucalhavam um monte de castanhas ficando pretas. A lata esquentava a bunda no carvão. Um deles, fazendo careta sob o sol, pergunta ao outro num momento de devaneio que antecede a fome '- Tu sabe onde vende mais latas dessas?'. O outro retruca, como se aquela pergunta fosse tão absurda quanto perguntar de onde vem Deus. Ríspido, responde como quem tem razão - 'Não!'.


Essas latas vem do bairro do Araxá, ali, subindo pela rua do cemitério. O caminho é tipicamente indicado com os beiços da vizinhança: 'é pra lá' (bicos apontam para frente, acompanhando de um impulso na cabeça). De lá em lá, a zuada se escuta e o portão é visto - 'Seu Alain está?'.

Valmor Clementino Guimarães (pode chamar Alain), 73 anos nada aparentes, funileiro e dono do que ficou conhecido naquele bairro como A Casa da Pancada - toda sorte de baldes, candeeiros, pás, bacias pra dar banho nos moleques, latas d'água, bules e ralos que enfeitam as feiras de Campina Grande (e o imaginário da cultura popular nordestina) saem daquele espaço miúdo e barulhento. “A gente fabrica mais de 200 peças por dia”, e nessa hora o peito dele estufou satisfação diante dos números - parou um instante, reflexivo, como que conferindo se exagerou na quantidade. Mas voltou a mim um olhar de certeza, sincero - eram duzentas, eu acreditei.

O plástico não é páreo para aquela gente - parece que naquela casa essas coisas não têm história, tudo é zinco, nada se racha sob o sol, só encandeia sob o pingo do meio-dia: e de uma maneira quase mágica ficou acomodado no nosso juízo assim. Talvez porque não foram pintados quadros com mulheres nordestinas ostentando exuberantes tupawares na cabeça, exibindo cores e texturas importadas e daqui a dois minutos rachadas. Parece que crescemos de outro jeito, e nossos olhos acabaram acostumando-se com outros cenários: são as bacias que metaforicamente ocupam o lugar acima dos nossos quengos, que enfatizaram as varizes das nossas bisavós no caminho ao açude, que estão nos poços amarradas com embiras, que vão sendo carregadas e nos fazem pender para um dos lados, pingando. Assim as latas se tornaram tão emblemáticas quanto os nossos próprios rostos - devem ser entendidas e respeitadas pelos seus simbolismos.

Mas disso sei dizer pouco, e deixei que seu Alain me explicasse o que importava. Espero-o na oficina, ao lado de uma geladeira enferrujada que nem sei se ainda funciona - de lá, o ferro era o que mais pesava, o resto era zinco, martelo e homens sem camisa - havia dias em que o abafado fazia pingar suor da testa deles, que paravam o serviço e encostavam as costas das mãos nas têmporas para aparar a transpiração. Ele rompe meu olhar absorto e 'dá com a mão' nas minhas vistas, ironicamente me chama para um lugar mais silencioso, para explicar como as coisas funcionam ali. Seu Alain está em um espaço estratégico de sua casa: sentado entre um quadro do Treze Futebol Clube e do Grêmio e logo abaixo de Jesus. Ele fala com as mãos postas, e por pouco não lhe peço a benção antes de começar a entrevista, mas ele interrompe ' - Fale alto, minha filha. Faz 60 anos que trabalho batendo e escuto ruim'. De tanto trabalhar com zuada, era também um pouco môco, compreensível.

Começa dizendo que a peça mais cara ali é a bacia - custa R$ 10, e a mais vendida é a chamada 'marmita', um pequeno bule pra amornar água. 'Meu trabalho é bater, ganho dinheiro batendo', explica - e numa insistência de ritmos que começa às 7h ('abro a oficina às 6h, mas se eu bater essa hora, acordo todo mundo!') e se estende até às 18h, construiu a casa, criou 12 filhos e manteve a paixão pelo futebol. Com ajuda de mais cinco pessoas, passa o dia na oficina: um lugar quente, com portas de rolo (tipo de mercearia) que lhe serve como espaço criativo - risca, corta e o resto se resolve à batidas. Depois de prontas, as peças vão ficando amontoadas até que os fornecedores busquem por elas - uma pechincha ali, uma negociação aqui, e o lugar fica vazio novamente, carente da decoração que acabou tornando-se habitual.

A chapa de zinco chega ao local com seus virgens dois metros por um, e depois de passar pelas mãos grossas dos homens, acaba saindo despedaçada em seis baldes, ou quatro bacias e dois candeeiros, depende do desejo deles. É claro que tanto tempo de barulho não passou imune - a vizinhança unida já fez até apelo pra acabar com o 'fuzuê' das batidas. Consta como a primeira peleja o causo de uma vizinha que foi até uma rádio do bairro reclamar do incômodo, mas o locutor não aceitou o argumento dela e retrucou aos risos: “Minha Senhora, o cidadão passou 60 anos da vida dele batendo, se parar ele morre”. Desde então não se ouve mais alarido algum - da vizinha, é claro.

Quando começamos a nos distrair e conversar sobre outras coisas que não fossem latas, começou a chover forte - como fosse sinal divino, cada pingo que caia soava como zinco gemendo, chamando atenção para voltar ao ponto de partida. Fosse a bica, a tremedeira dos fiapos de ferros desperdiçados e pendurados na oficina , com o barulho do trovão, tudo ali se remexia pra mostrar que naquele espaço silêncio não significava mais que solidão. Se para seu Alain faltava o martelo marcando o zinco na hora da conversa, sobrava-lhe o compasso dos pés marcando o ritmo da fala. A última pancada que ouvi dele foi a porta batendo - Seu Alain foi dormir cedo para começar tudo de novo no dia seguinte.

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2 comentários

  1. Que reportagem do caralho!
    Recentemente assisti uma reportagem sobre a casa da pancada, mas você conseguiu (como sempre) dar poesia a fatos corrigueiro.
    " Jornalistas que dizem que não tem pauta e que fazem do LEAD o seu DEUS, leiam o Alarme Falso, e aprendam!" Esse é o meu apelo.
    Xeros e parabens.

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  2. Parabéns pro meu tio Valmor clementino guimarães e meus primos Valcleison batista clementino guimarães
    Valmir batista clementino guimarães
    Valdemilsom batista clementino guimarães
    Valdemir batista clementino guimarães
    Valdete batista clementino guimarães
    Maria batista clementino guimarães
    Valneide batista clementino guimarães
    Aline guimarães
    Angelica guimarães
    Alan guimarães
    etc...netos bisnetos.
    Forte abraço pra todos amo vocÊs.

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