Era fumaça, lembrança e riso

18:32

Foto: em Umbuzeiro, 2008.

Coisa de guri chato reclamar da fumaça. Não gosta de fogueiras quem não tem na memória uma lembrança feliz que esse cheirinho de lenha queimada faz lembrar. São aquelas pessoas que nunca viram, da mesa de madeira, com um único banco daqueles bem grandes, a avó cozinhando num fogão à lenha, e depois escutar o avô contando história da Comadre "Fulôzinha", enquanto você toma café, vestida num pijama bem quentinho e resto de baba enfeitando o canto da boca. São aquelas pessoas que não sentiram o cheirinho de fumaça na roupa daquele homem que puxava o seu cavalo enquanto você passeava pelas estradas verdinhas do sítio do avô. E não sabem que é esse o cheiro que tem os lençóis bem grossos que cobrem as camas das pessoas que moram em lugares onde os carros nem passam.

Esse é o cheiro de um lugar que se acorda bem cedinho, pra ver o seu avô tirar o leite da vaca, e santo Deus, como eu enjoava ao ver aquela espuma no balde - eca! Esse é o perfume que ficava impregnado no meu cabelo trançado, e eu pedia insistentemente à minha mãe para dormir de trança: É que minha avó dizia que a tal Comadre iria fazer um nó no meu cabelo, e eu ficava com medo. E lá ia eu deitar na rede, com o cabelo preso, e ficava observando as fotos dos meus bisavós. Um retrato já meio mofado, com a moldura já carcomida pelos cupins, que eu queria ter visto hoje, queria saber se ainda está lá preso por uma corda que era tão fininha e velha que eu achava que ia cair a qualquer momento. Não gosta dessa fumaça quem nunca ficou na porta do quarto vendo a avó, às seis horas, pontualmente, rezar um pai-nosso diante daqueles pequenos santuários de madeira e vidro, rodeado de terços e fitinhas. Às vezes ela acendia uma vela, e eu me assustava com o rosto de alguns santos: é que com a oscilação da luz da vela eles pareciam fazer caretas. Hoje eu sei que eram só esculturas mal feitas de gesso que me incomodavam quando eu passava por lá no escuro.

Sempre sinto esse cheiro de fumaça com uma espécie de respeito misturado com saudade, porque é através dele que eu revivo tudo isso com uma nitidez assustadora. É como se esse cheiro montasse instantaneamente ao meu redor um cenário idêntico ao da minha infância, e eu pudesse ir apontando a você todos os detalhes, entende? Esse cheiro me lembra o café da manhã no alpendre, o medo que eu tinha dos gansos correrem atrás de mim, o ou dos meus gritos de “Tupã, vem cá” (esse cachorro teimoso nunca vinha). Me lembra as vaquinhas enfileiradas no curral, presas, e o meu avô colocando um ferro quente com as iniciais dele, e o quanto isso apertava o meu coração e me fazia voltar chorando para o alpendre.

Me faz lembrar o quarto onde meu avô guardava as celas dos cavalos, e do quanto ele ficava irritado quando nós entrávamos lá. Me faz lembrar do moinho onde colocavam o milho para fazer o cuscuz da janta. Me faz lembrar do quanto eu tive sorte. Adoro esse cheirinho de férias no sítio, e tudo bem que as pessoas por aqui detestem essa fumaça, pra mim é um dos melhores perfumes para essa época do ano.

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1 comentários

  1. Esse texto tem o cheiro do Variado, do riacho que quando chovia era um lamaçal delicioso, do açude que as véa vinha brigar pra não tomar banho porque era "água de beber", dos pintinhos que comiam na nossa mão milho ralado na hora, dos gansos que davam "carreira" em menino besta que ia mexer com eles, do curral cheio de vaquinhas magras que insistiam e dar leite pra fazer coalhada, dos cavalos que de tão cansados imploravam pra não divertir mais nenhum guri besta, enfim... Esse texto é olfativo, cheira um pedaço bom da minha infância.

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