A cela deles

15:31



Fazia um frio danado e eu agradeci por estar usando um sutiã grosso. Estava perdida, olhando para o chão e rindo de meia-boca, pensando na tragédia dos bicos de peito arrepiados indisfarçáveis pelas blusas, quando o homem vestido de preto e barriga pançuda ensacada dentro da calça catou nos bolsos da calça adornada com revólver uma chave. O barulho me despertou, e de repente ele já estava na minha frente e abria o cadeado. Empurrou a grade do portão principal do presídio do Serrotão, que fica em uma das saídas de Campina Grande. O clima era como o de qualquer outro lugar onde havia gente presa.

Não que eu conhecesse todos os lugares assim, só a Central de Polícia, que visito quando preciso fazer alguma reportagem policial de gente presa por ser flagrada com uns papelotes de maconha, espancar a mulher ou andar armado. Existiu também a visita à Polícia Federal, quando meu pai esteve preso por dívidas trabalhistas. De cela eu entendia pouco, mas o suficiente para ficar agoniada diante delas.

Tinha aquela gente toda vestindo uniformes no pátio, e eu seguia pelo caminho indicado pelo agente penitenciário. Ele ia na frente, destrancando portas que rangiam e eu nem sei para onde davam. O lugar era grande, havia uns cachorros pretos e grandes que deveriam me intimidar, mas estavam magros demais para isso. ‘Eles ficam soltos assim mesmo?’, perguntei. ‘É’, o homem respondeu desinteressado.

Subi mais um pouco e cheguei ao local que estava marcado no convite: uma apresentação cultural marcaria a pré-estreia do Festival de Inverno de Campina Grande daquele ano. Era uma aula-espetáculo que encerraria o projeto Cultura no Presídio, que por falta de verbas, se despedia das atividades com um tico de dança e música apresentadas por sete detentos. Mas disso, dos convidados, e das lamúrias eu nem queria saber, muito embora estivesse ali para isso.

A sala era miúda e fria, ficava no lugar mais alto do presídio, estava cheio dessa gente simbólica, que de tanta representatividade de uma função social, nem tinham mais rosto. Eram os secretários Sicranos, bispo Beltrano, primeira-dama e o vereador. Essa gente que não sei o nome, mas preciso decorar o rosto para fazer as perguntas-óbvias-das-respostas-cansativas, às quais eles reagem docilmente.

No meu juízo, as estrelas eram aqueles homens que estavam suando e nervosos num camarim improvisado e apertado, a alguns passos dali. Ao lado de onde a platéia estava acomodada com cara de nojo por depositar as bundas em cadeiras que eram usadas pelos presos. Foi então que começou a peleja: minutos antes da apresentação, as câmeras estavam todas ligadas, fotógrafos posicionados e repórteres-de-rosto-maquiado prontas, todos com olhos fixos... no público, ainda. Apenas dois minutos, e a sabatina de entrevistas permanecia estática, sem se deslocar para onde eu achava que importava. Fiz um sinal para o cinegrafista, pedi para que ele continuasse ali mesmo, seguindo o que todos fizessem. Para matar a minha curiosidade, fui aonde os presos estavam.

Vestido com roupas de dança e encabeçando a fileira, estava Fabiano Sousa, de 29 anos. Era magrelo e tinha os olhos claros. Dos 16 anos da pena por tentativa de homicídio, já cumpriu 11. Ele estava sério e com um olhar tão firme, que se o foco pudesse ser visto, seria uma linha retíssima que perfurava a parede, de tão decidido. De tão concentrado naquela coisa que eu nunca vou saber o que era, a pupila ficou dilatada. Perguntei se estava nervoso, ‘sim!’, mas riu depois de responder, e então eu confiei que ele não estava nervoso, apenas feliz.

A primeira apresentação foi a do Boi-bumbá. Quando eles entraram, um silêncio constrangedor aumentou ainda mais o nervosismo deles. O som estava muito baixo e mal se ouvia a música, mas os presos não se importaram (‘nem eu, está bonito do mesmo jeito’, queria dizer-lhes). Os tênis deles produziam uma espécie de música própria, e eu gostei. Gostei porque eles eram fortes, porque não ficavam envergonhados diante daquela gente que olhavam tudo de baixo pra cima, como quem tem presença ali por caridade.

Quando eles retornavam da primeira apresentação, falei com Welson Robson, um moreno gordinho, com o dente da frente quebrado, mas sem vergonha de rir bem aberto. Cumpre pena por furto, e já deveria ter saído, ‘mas tu sabe, essas investigação mal preparada’ acabaram deixando ele lá. Eles eram corajosos. Não porque mataram, roubaram, engoliam aquela comida ruim danada, ou toleravam a ignorância dos carcereiros. Não eram corajosos só porque estavam ali dentro, mesmo que pra mim isso já bastasse como prova mais genuína de resistência diante da vida. Eles eram corajosos, e muito, por um motivo que nem sei dizer.

Fiz reverências silenciosas e secretas a cada um deles. Eles não viram, nunca vão ver, e eu acho uma pena, pois minha alma estava totalmente curvada, tensa, dura diante da maior prova de coragem que eu enxerguei na vida: dançar ali. Ficarem felizes, uma alegria aguda e perfurante, que incomodou os rostos sisudos que achavam que aqueles homens eram incapazes de serem bons, somente. Mas eles eram. Eram mais homens porque dançavam, e mais bonitos porque ignoraram aquela gente.

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3 comentários

  1. Imagino a garra dos homens e os olhares de discriminação depositados por pessoas que ali estavam. Infelizmente não é algo difícil de se imaginar. Infelizmente messsmo! Grande sensibilidade a sua, poder nos mostrar o outro lado, o lado que falta em muitas pessoas que também fazem o seu trabalho ou aquelas que tentam promover a cidadania, sem ao menos tê-la.
    Grande beijo amiga!

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  2. Enchi meus olhos de lágrimas. Queria que mais pessoas tivessem a mesma sensibilidade que você de enxergar os seres humanos, o que existe lá, bem dentro deles, e poucos conseguem ver. Queria EU MESMA ter essa sensibilidade. Parabéns, mais uma vez.

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