Silence is Golden

19:45


Existem vidas que não permitem a entrada de estranhos. Era isso o que eu pensava hoje quando voltava dormindo no banco de trás do carro. De olhos fechados conseguia distinguir o percurso de volta para casa, só pelo balanço do carro, pelas curvas e buracos do caminho que eu conhecia tão bem, era a pior hora: a casa. O que eu dizia? Sim, que certas vidas não permitem a entrada de estranhos, porque não é todo mundo que tem estômago pra ver.

É como carregar uma ferida e não ter paciência de explicar como nasceu, não ter paciência para a intolerância alheia, as perguntas movidas somente por curiosidade, sem nada que sinalize ajuda ou que distribua uma parcela de força. É como ter uma doença e não ter vontade de explicar como contraímos, ela por si só é a explicação, e se você não é médico, então nem tente infeccionar mais o buraco com as mãos sujas.

Assim eu evitava dar explicações, andava e torcia para que, quem pudesse, visse bem e não me perguntasse, somente entendesse, mesmo que isso ficasse guardado no próprio juízo e não fosse expresso nunca. Assim era a minha vida, sem porteira pra gente que não me conhece, apesar de exposta, porque era do meu instinto ser assim: falafusêra, jorrando pistas até pelo ritmo da respiração, com desastrosos segundos fixando o olhar na mesma direção, comendo as pessoas com os olhos, inventando estórias delas na minha cabeça, rindo, admirando, querendo saber se elas correspondiam aos desenhos mentais que eu fazia delas, deles, das coisas, dos espaços, das salas, das ruas, ônibus lotados, velhinhos que me comovem pela fragilidade de existir.

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