Mães órfãs e jornalista com nó na garganta

13:44


Tirar foto de gente estirada no asfalto, calor de meio-dia. Onze tiros, alguns na cabeça. Sangue serpenteando em pequenas borbulhas, gente ao redor do morto, se amontoando, pisando no pé, ‘sai do meio’ pra ver a criatura esturricada. Um policial palitando os dentes e avaliando o estrago, apoiando uma das mãos no colete. Pega o rádio, aciona mais uma viatura, e nesse meio tempo responde às minhas perguntas, preciso preencher o lead com um nome, endereço, saber se o sujeito era ex-presidiário, se usava drogas (muito embora um preconceito íntimo já tenha respondido metade delas no meu juízo). Reportagem policial era isso, a grosso modo (muito grosso, bruto mesmo).

Mas nada disso tinha conseguido me deixar tão nervosa ou triste quanto o dia em que fui fazer ‘reportagem de gente morta’ em um lugar ‘limpo’. Sem sangue, sem corpo estirado, sem barulho, sem gente chorando. Eram somente três mulheres ao redor de uma mesa. Passada a euforia dos serviços burocráticos, a série de entrevistas, corpos enterrados, crimes resolvidos ou não, ainda tem dor. Ainda existe uma ‘pequena morte’ que não cura. Anos depois de terem os filhos assassinados ou mortos em outras situações trágicas, vem o silêncio.

É a vulnerabilidade diante da morte. Casa vazia, guarda-roupas cheios de coisas que ninguém usa, cama que nunca se desforra, comida preferida que não será feita porque... simplesmente ninguém ali gostava além de quem já se foi. Foi tentando vivenciar o luto em conjunto que de 28 mães criaram o Grupo de Apoio às Mães Órfãs (AMO). “As mães se isolam na dor, se fecham no medo, com medo de receber ameaças dos assassinos, por exemplo. Procurar encaminhamento judicial é importante, mas encontrar outras pessoas que passam pelo mesmo trauma, que fale a mesma linguagem, que entenda a dor que passamos. Dividir o luto com outras mulheres nos faz mais fortes”, revela a idealizadora do projeto, Valentina Isabel Araújo.

Não é difícil entender isso quando um rosto um tanto triste nos conta, e todas as explicações vem acompanhadas de um par de olhos sempre prontos pra derramar uma lágrima que nunca vem, talvez por vergonha. A casa de Valentina tinha um pouco disso. Apesar de bonita, silenciosa. Apesar de estarem juntas para dar entrevista, explicar como funcionava o AMO, por alguns segundos havia um silêncio onde cada uma vasculhava um espaço na memória, e eu não podia fazer nada além de esperar o fôlego delas para retomar a frase.

Só entendi o que era saudade quando estive entre elas, e só entendi o que era força quando me despedi de Valentina. 'Quintal bonito o seu', disse meio envergonhada enquanto aguardava ela me levar até o portão, de onde eu ia sair para cumprir outra pauta. Ela riu, mais com os lábios do que com os olhos, e concordou. 'Não era assim quando recebi a notícia que meu filho morreu, mas minha neta nasceu e... vida é vida, né?'. Sim, até aquela que nos falta.
Grupo de Apoio às Mães Órfãs (AMO) - Conversas e encontros para vivenciar o luto de forma coletiva foram os jeitos elaborados para ajudar às mães a suportar o período de adaptação à uma rotina sem o parente. Foi o que aconteceu com a Rosa Amélia Vitorino Guimarães, que no ano de 2004 recebeu a notícia de que o filho, de apenas 19 anos, havia sido esfaqueado e morto quando tentava separar uma briga em uma festa junina. “É uma dor que não se esquece. Muda tudo na vida, nada consegue voltar ao normal”, diz.


Mas um bocado delas ainda tem medo. Mesmo com serviços e conversas ali, de graça, muitas famílias resistem em receber ajuda do grupo, por medo de sofrer represálias dos assassinos. “A adesão das mães que tem filhos no tráfico ao nosso grupo é quase nula, porque elas tem medo. Mas nosso grupo é de acolhida, e elas podem freqüentar em sigilo, sem problemas”, explica Rosa Amélia.
Como participar - As reuniões, que acontecem quinzenalmente na Igreja Católica PIO X, no centro da cidade, funcionam como uma espécie de terapia em grupo. Para os interessados em participar das reuniões, basta agendar a data, ou solicitar que algumas das integrantes vá até a residência, através do telefone da coordenadora, Valentina (83) 8869-9480.

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1 comentários

  1. Vivi esse mal duas vezes na minha família, perdi dois primos: uma em um acidente de carro (2001) e um para um câncer na coluna (2002). E acredito que nunca vou esquecer do rosto das minhas tias quando souberam da ida dos filhos. O rosto de um corpo oco e de um coração inchado de dor, que não queriam pertencer a realidade que se apresentava. Depois que eu tive meu filho essa lembrança me doi muito, muito mais. Posso dizer que quando, pelo menos, imagino em perde-lo, perco antes o chão, o ar... Deve ser a situação mais dificil da vida de uma pessoa: se perder de alguém que saiu de você.

    Enfim, como meu ex-chefe dizia e você diz sempre: fé e força!

    Beijos, Liginha!

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