Um tiro de Rojão avisa a chegada do Benedito *

18:33

Foto: Benedito do Rojão por Iramaya

Bati palmas e soltei o bom e velho “Ô de casa”. Lá vinha ele, cambaleando, fechando a camisa azul de botões plásticos e cintilantes, trupicando passos na chinela de couro – foi até ligeiro. Colocou o chapéu na cabeça e pegou a chave que fica escondida num vaso de plantas. Boa tarde! A cara ainda estava um pouco inchada: “tava deitado” – ah, entendo. Aquela cochilada depois do almoço, né? Ele concordou rindo banguelo e meio envergonhado.

João Benedito Marques, de 71 anos, só teve documentos de registro depois dos 22 anos, até ali “era um ‘condestino’ mesmo”. Aposentado, é um senhor moreno e de voz carinhosa, daquelas de avô mesmo – também pudera! Os mais de 19 netos (perdeu a conta no meio da contagem) o treinaram bem para esse ofício. Nascido em 1978 na fazenda Juá, município de Boa Vista, teve o parto ajudado por uma comadre da vizinhança. O pai dele, Benedito Eliotério, era um pernambucano e cantador de coco de roda, trabalhava para um coronel. Ele se engraçou logo cedo por uma mulata chamada Regina Maia, paraibana de Alagoinha que, por paixão, também foi cantar coco mundo a fora.

Num cenário como esse, não demorou para que Benedito Marques se transformasse logo em Benedito do Rojão. Aos treze anos aprendeu a tocar sanfona com um artista local chamado Severino Biró, e daí desembestou para a viola e o pandeiro – tudo na batida rápida exigida pelo ritmo. O rojão é um estilo musical feito pra cabra que tem juízo rápido e agüenta descrever suas próprias façanhas sem perder o fôlego. Valentia, coragem e destreza pra não fazer a língua enrolar e improviso, se a rima falhar: Benedito tem tudo isso, e um pouquinho mais, se olharmos de perto.

Foi cantador de viola numa radiofusora em Aracajú, conheceu Jackson do Pandeiro na Feira Central de Campina Grande, escreveu com ele a letra da música “Santo Antônio” e recebeu por ela 30 contos – “gastei logo 15 conto no cabaré bebendo com ele”, disse às gargalhadas. No ano 1966 apresentou-se num programa de TV local, ao lado de Rosil Cavalcanti – foi numa aparição como essas que a sua atual esposa, Maria Soares de Medeiros, se apaixonou por ele: até hoje estão juntos. A primeira oportunidade de gravar um CD surgiu em 2004, e daí em diante Benedito era presença carimbada em festivais de música – num deles, o ForróFest, ganhou o prêmio de melhor intérprete.

Mas antes de se envolver com a música, Benedito foi ajudante de padeiro em cidades como Massaranduba e Campina Grande – lugar onde mora atualmente, numa casa miúda, pintada de um azul vibrante, resultado várias pinceladas de cal. Fica numa ruela tímida no bairro do Monte Santo, mas não é difícil de achar: todo mundo indica o caminho, e não faltam dedos apontando pra mostrar onde se esconde o bendito Benedito.

Do sofá onde sentei dava pra observar a sala toda. Na estante, um toca fitas antigo, copo do São Paulo Futebol Clube e o bocado de troféus que ganhou pelos concursos vencidos – como intérprete ou compositor –, que estão ali pra dar as boas vindas às visitas. Sem vaidade forçada, Benedito nos explica como conseguiu cada um deles. É bom ter paciência: a memória dele é boa, lembra até de data de casamento sem fazer careta, suas conversas estão sempre carregadas de detalhes, especialmente datas.

Uma cortina verde neon protege a entrada do quarto. A cada balançada do vento, minha curiosidade aumentava – tal qual moleque enxerido olhando bunda de moça de baixo dos panos, de rabo-de-olho, eu me punha a tentar desvendar o que era aquela caixa. Quando não me agüentava mais, interrompi o assunto e perguntei, “o que é aquilo?” Ele não ficou zangado, lançou um olhar rápido à coisa e voltou-se pra mim. “É uma sanfona, mas não toco sanfona. Hoje, só viola e pandeiro”. Fiz que sim com a cabeça e entendi do que ele gostava de falar – pandeiro. Sentou-se desleixado na cadeira, o chapéu amarelo lhe dava um ar gângster, sabe? A aba encostava na armação do óculos – aliás, acho que se não fosse por ela, caia. Arrumação feita, começou dizendo que deixou a viola porque “era ‘sacrificoso’ demais”. Não acredita em quadro de santo, porque “se Jesus não quiser, santo não voga”, mas um pantim nunca é demais. Antes de sair observei uma pena de guiné na aba do seu chapéu: “dizem que é ‘axé’, é paz, é bom ter, né?” – sim.

* Texto publicado originalmente na Revista Fome de Quê? II Edição

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1 comentários

  1. Seu jeito de descrever cenas é inconfundível! Escreva um livro, minha amiga, serei a primeira a comprar ;D

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