Morreu dormindo

08:34

Foto: Catada na internet

Morreu enquanto dormia. Era estranho, porque eu o escutava todos os dias justamente quando eu acordava. Tinha uma voz meio grossa e apertada, que só entendi o motivo daquela sonoridade depois que o vi: ele era gordinho, o pescoço parecia sufocar-lhe a fala, e estava explicado. Fiquei chateada – foi assim, na redação do jornal, que recebi a notícia da morte do radialista Wilson Maux. Com ele morreu um pedacinho das minhas manhãs, das lembranças de quando eu acordava para ir ao colégio, antes das 6h00 e minha mãe insistia em colocar aquela música chata: ‘Abençoa senhor as famílias, amém’, cantada por um monte de adultos que forçavam voz de criança, um saco.

Mas não importava, a graça naquilo tudo era ele, Wilson, o modo como ele desejava os parabéns aos aniversariantes do dia, as crônicas lidas por ele, os conselhos que ele salpicava nos microfones da rádio enquanto a cidade ainda estava sonolenta, acordando. Ficava imaginando o quanto ele se esforçava, procurava aqueles textos para ler para gente que ele sequer conhecia. Wilson Maux morava dentro do aparelho de som da nossa sala, era assim que eu imaginava. Eu tomava banho, ele estava falando. Eu ia tomar café, ele lia a crônica. Eu esperava minha mãe me deixar no colégio, e a voz dele anunciava uma música.

Mas a melhor lembrança mesmo foi de quando o vi pela primeira vez, em um restaurante. Meu pai e minha mãe apontaram, ‘olha, aquele ali é o Wilson Maux’, e eu parei tudo. O homem, sentado à mesa na companhia de uma mulher, era bastante gordo, pernas curtas, um pouco careca. Comia com prazer. Duas taças de vinho tinto na mesa, suadas, conversava com uma senhora que parecia ser a melhor amiga dele. Ao lado da mesa, um suporte para a bebida que ficava mergulhada no gelo. Se acabasse, ele apenas levantava a mão e o garçom vinha rápido. Eu ficava ansiosa para que o domingo chegasse logo, para ver Wilson Maux almoçando, havia ali um charme que eu não sabia explicar. Nunca falei com ele, mas me preocupava em sentar na cadeira de modo que eu ficasse de frente, pra ver como ele se portava. Ele morreu. Um infarto fulminante enquanto dormia, isso me impediu de acordar um pouco, também.

Wilson Maux - Faleceu por volta das 3h00 da madrugada dessa segunda-feira, 17, em Campina Grande. Por muitos anos comandou o programa matinal ‘Desperta Campina’, na Rádio Campina Grande FM, onde trabalhava desde 1988. Também marcou época pela produção e apresentação da crônica ‘Bom dia para Você’. No total, foram mais de mil crônicas*, apresentadas.

** De acordo com a jornalista Mirlene Bezerra (que enviou uma correção por comentário no blog) o número de crônicas ultrapassa os três mil registros e a mulher mencionada como amiga, era na verdade a esposa dele, Conceição.

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5 comentários

  1. Vou sentir muita saudade do "Desperta Campina". Vou sentir saudade de sentar curiosa ao lado dele doida pra que ele fale qualquer coisa, só pra eu ter certeza de que aquela voz era de verdade mesmo, não era só no rádio. Morreu uma parte das nossas infâncias. :(

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  2. Mirlene Bezerra - Jornalista17 de janeiro de 2011 19:49

    Só uma correção companheira: na verdade foram mais de três mil crônicas apresentadas. Ele pessoalmente me informou isso, quando falei com ele por telefone na última sexta-feira. Na oportunidade lhe pedia as cópias de suas crônicas para uma seleção com o objetivo de buscarmos patrocínio para o seu tão sonhado livro. "Estás louca?!!!", ele me questionou, informando que já haviam lhe proposto o tal patrocínio. Pedi então que ele tratasse logo de fazer a seleção, já que morando atualmente em São , no maranhão, me seria inviável auxiliá-lo nesse trabalho.

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  3. Mirlene Bezerra - Jornalista17 de janeiro de 2011 19:52

    Só uma correção companheira: na verdade foram mais de três mil crônicas apresentadas. Ele pessoalmente me informou isso, quando nos falamos por telefone na última sexta-feira. Na oportunidade lhe pedia as cópias de suas crônicas para uma seleção com o objetivo de buscarmos patrocínio para o seu tão sonhado livro. "Estás louca?", ele me questionou, informando que já haviam lhe proposto o tal patrocínio. Pedi então que ele tratasse logo de fazer a seleção, já que morando atualmente em São Luís, no Maranhão, me seria inviável auxiliá-lo nesse trabalho.

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  4. Mirlene Bezerra - Jornalista17 de janeiro de 2011 20:05

    "Acorda menina!!!" Seu texto me fez lembrar sua voz como se estivesse berrando essa frase aqui ao meu ouvido. Também costumava escutá-lo enquanto tomava meu banho para saír as pressas para a Faculdade de Comunicação e Artes da Universidade Estadual da Paraíba, onde concluí minha graduação em junho de 1994. Logo tive o prazer de trabalhar sob seu comando na Rádio Campina Grande FM e depois, de ser adotada por ele e sua fiel companheira, Conceição. Como tenho saudades desse tempo!
    A propósito, a senhora que disseste parecer ser muito sua amiga, na realidade era a melhor: é sua esposa.

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  5. agradeço em nome da minha mãe Conceição,da minha irmã Tânzia e todos da nossa família o carinho que sempre tiveram com o meu pai Wilson Maux. Ele deixou um pedaço de seu conhecimento a muita gente. Obrigada pela força nessa hora de tristeza e perda.Estamos plenamente agradecidas pela força. Obrigada de coração.Beijos no coração de todos. Tânia Maux
    São Paulo, 19 de Janeiro de 2011

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