A visita do homem que matou três*

18:33

Sentou na cadeira, ajeitou o boné, pigarreou como quem pede silêncio a platéia e começou a estória sem arrodeios. “Cheguei em casa e encontrei o desmantelo. O caba tava lá na cama, nuinho, com a minha muié.” Era o mês de junho, 1998, lá pelas três horas da tarde. Ele trabalhava como vaqueiro em uma fazenda, em Lagoa Seca, e naquele dia pastorou tudo, menos a esposa, Joselha.

Severino Bernardino Silva, de 36 anos, tinha pele morena combinando com os olhos cor de ferrugem, que só miravam os próprios pés. Trabalhava como preso de confiança, fazendo serviços gerais em todo o presídio do Serrotão, em Campina Grande. Eu o encontrei num domingo de manhã, dia de visita. Estava cavando buracos a alguns metros da sala onde eu estava, quando o diretor mandou chamar às pressas, e ele chegou todo suado, subiu as escadas e abriu a porta com força. “O sinhô chamou?”, o diretor apenas fez um gesto indicando onde ele deveria sentar, e eu continuei a conversa que começou com um silêncio constrangedor.

Enquanto isso ouvíamos o barulho vindo do pátio, onde estavam espalhados outros 400 homens que se dividiam entre a chegada dos familiares, rodas de baralho, amassos com as namoradas e banho de sol. Parecia um cemitério de estórias secretas que serpenteavam guardadas nas bocas de cada preso. Mas eu tremia de curiosidade em saber que a melhor história não estava no pátio. Não naquele dia. Severino estava na minha frente com ar de timidez mais puxada para um ar matuto, o que passou logo quando começou a contar como aconteceu lá pelas bandas do sítio o causo do homem que matou três pessoas no mesmo dia. O personagem principal, ele mesmo, que mandou para o céu com tripa e tudo a mulher, o amante e um peão que apareceu pela frente querendo satisfações.

Severino bateu na porta e estranhou os gemidos: o barulho da mulher com quem era casado era fácil de identificar, mas o que lhe fez subir o sangue foi perceber que estava misturado com a voz do gerente da fazenda, que tentou correr quando ouviu as pancadas raivosas das botas de Severino, que rasgavam o chão da casa. O homem tentou fugir, mas Severino o segurou pelo braço. Joselha, na inexperiência dos seus 19 anos, tentava disfarçar a sem-vergonheza colocando uma blusa, ajeitando o cabelo às pressas, passando as mãos por entre os fios, como quem tenta ganhar tempo fingindo estar ocupada, para só depois dar a resposta aquilo tudo.

O vaqueiro não quis explicação alguma. Mandou os dois vestirem a roupa, porque não queria enterrar defunto nu, e deixou um do lado do outro. Aprumou a espingarda calibre 12 por entre as mãos grossas e atirou primeiro nele, “porque a raiva dele era maior”. Um tiro na cabeça e o gerente caiu mole, breando toda parede de sangue. Joselha tentou correr, gritou ainda “Não me mate, meu amor”, ao que Severino respondeu com um riso dolorido: “Meu amor? Agora tu é meu amor?” Não esperou a resposta e mirou no corpo dela o tiro onde doía nele mesmo: o peito. Estava feito, cabeça e coração mortos, ele então foi enterrar os corpos sem nem precisar sair de casa.

Afastou a cama onde dormia com a desalmada e fez uma cova funda. Enrolou os dois em lençóis, depois com uma lona grossa, juntou as roupas dela e jogou tudo dentro do buraco com uma raiva danada. Uma carroça de areia, uma de concreto e finalizou com uma camada de cimento. “Foi um serviço bem feito, o chão nunca nem trincou”, disse orgulhoso. Colocou a cama de volta no lugar, limpou as paredes e saiu para arejar o juízo, quando um peão veio aperriar Severino querendo explicações para o barulho que ouviu dos tiros. Impaciente, ele meteu bala nesse também, mas não se deu ao trabalho de improvisar velório e deixou ele estendido ali mesmo.

Voltou para casa e morou lá por mais de dois anos. Trabalhava como vaqueiro na mesma fazenda, dormia na mesma cama que serviu de sepultura para dois amantes, fazia de conta que não tinha acontecido nada. “Eu me lembrava que tinha gente debaixo de mim, mas não ligava não senhora, dormia normal”. Disse que nunca teve pesadelo, nem nada. A mãe de Joselha mandava recado, pedia notícias da filha, mas Severino dizia que ela estava visitando as amigas, passando uns dias na casa de umas primas ou estava meio adoentada.

“Mas não teve jeito não, nada pra Deus é custoso”, falou ressentido. Um dia, quando chegou em casa, o lugar estava lotado de gente. Policiais, vizinhos curiosos e a imprensa: Severino tinha que desenterrar os mortos. “Não senti nada demais, tava só os osso mesmo”, explicou fazendo gestos. E se fosse pra se vingar novamente, Severino, tu faria? “Eu matava de novo, se eu pegasse na minha cama. Nem respeitar respeita, logo na cama do caba.” Severino já pagou a pena de 12 anos que pegou pelos três homicídios, mas continua preso no Serrotão: é que há três anos tentou matar um outro cabra que se engraçou por sua nova namorada.

Ouvi a história toda com cuidado em não fazer barulho com a respiração, para não atrapalhar em nada o que ele me dizia. Me despedi. Do lado de fora do presídio, as mulheres faziam barulho no portão principal. As sacolas plásticas abarrotadas de comidas eram remexidas, o pessoal reclamava da fila furada, do calor. Dentro, homens de bermuda e chinelo lançavam olhares ansiosos para o portão que dava entrada aquele quadrado ao qual se resumia a vida deles: o pátio. Viravam a cabeça todas as vezes que a estrutura de ferro rangia indicando a chegada de alguém. Para eles, significavam as visitas que não vinham nunca. A esses restava se juntar com os evangélicos, que ficavam de terno e bíblias em punho, andando em círculos pela quadra e deixando escapar um “aleluia!” de vez em quando, enxugando o suor com os punhos da camisa. Todas as conversas se misturavam em um volume alto, era impossível distinguir uma voz, um assunto.

Fiquei de pé, olhando tudo, ao lado do diretor do presídio, que ria silenciosamente do meu espanto. Quando sai dali, a grade escura se trancou atrás das minhas costas e ele riu: ‘Viu? Você saiu do inferno sem se arranhar’. Devolvi o riso, mas secretamente discordei. Severino havia cavado em mim a cova mais funda que pode, sem precisar derramar uma gota de suor pra isso.

* Texto publicado originalmente na 4ª edição da Revista Fome de Quê?

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3 comentários

  1. Caramba você pode num ta vendo, mas eu estou todo arrepiado,kkkk.
    Adorei o texto Coeli, mas uma vez você nos brinda com uma bela história da vida Real,bem que esse poderia ser o modelo do jornalismo policial,não é?
    Quem não ridiculariza as pessoas e as trata como ser humano independente do que fizeram, pois somos seres suscetíveis a todo tipo de situação.
    Mais uma vez parabéns e obrigado pelo texto.

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  2. Irmã, eu me orgulho de você cada vez que leio um texto seu! Parabéns mesmo. Amei.

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