Fogueira, São João e fumaça

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Não gosta de fogueiras quem não tem na memória uma lembrança feliz que esse cheirinho de lenha queimada faz lembrar. São aquelas pessoas que nunca viram, da mesa de madeira, com um único banco daqueles bem grandes, a avó cozinhando num fogão à lenha, e depois escutar o avô contando história da Comadre "Fulôzinha", enquanto você toma café, protegida por um pijama bem quentinho.

São aquelas pessoas que não sentiram o cheirinho de fumaça na roupa do homem que puxava o cavalo enquanto você passeava pelas estradas verdinhas do sítio do avô. E não sabem que é esse o cheiro que tem os lençóis bem grossos que cobrem as camas das pessoas que moram em lugares onde os carros nem passam. Esse é o cheiro de um lugar que se acorda bem cedinho, pra ver o seu avô tirar o leite da vaca. Esse é o perfume que ficava impregnado no meu cabelo trançado, e eu pedia insistentemente à minha mãe para dormir de trança: minha avó dizia que a tal Comadre iria fazer um nó no meu cabelo, e eu ficava com medo. E lá ia eu deitar na rede, com o cabelo preso, barriga cheia de cuscuz, e ficava observando as fotos dos meus bisavós. Um retrato já meio mofado, com a moldura já carcomida pelos cupins, que eu queria ter visto hoje, queria saber se ainda está lá preso por uma corda que era tão fininha e velha que eu achava que ia cair a qualquer momento.

Não gosta dessa fumaça quem nunca ficou na porta do quarto vendo a avó, às seis horas, pontualmente, rezar um pai-nosso diante daqueles pequenos santuários de madeira e vidro, rodeado de terços e fitinhas. Às vezes ela acendia uma vela, e eu me assustava com o rosto de alguns santos. Com a oscilação da luz de vela eles pareciam fazer caretas. Hoje eu sei que eram só esculturas mal feitas de gesso que me incomodavam quando eu passava por lá no escuro. Sempre sinto esse cheiro de fumaça com uma espécie de respeito misturado com saudade, porque é através dele que eu revivo tudo isso com uma nitidez confortante. É como se esse cheiro montasse instantaneamente ao meu redor um cenário idêntico ao da minha infância, e eu pudesse ir apontando a você todos os detalhes, entende?

Esse cheiro me lembra o café da manhã no alpendre, o medo que eu tinha dos gansos correrem atrás de mim, o ou dos meus gritos de “Tupã, vem cá”. O cachorro teimoso, de "quartos" caídos e perebentos nunca vinha. Fumaça me lembra as vaquinhas enfileiradas no curral, presas, e o meu avô colocando um ferro quente com as iniciais dele, e o quanto isso apertava o meu coração e me fazia voltar resmungando preces às vacas-cicatrizes. Me faz lembrar o quarto onde meu avô guardava as celas dos cavalos, e do quanto ele ficava irritado quando nós entrávamos lá. Me faz lembrar do moinho onde colocavam o milho para fazer o cuscuz da janta. Me faz lembrar do quanto eu tive sorte.

Adoro esse cheirinho de férias no sítio, e tudo bem que as pessoas por aqui detestem as fogueiras e proíbam de pairar no ar essa fumaça-tradição que deveria ser obrigatória em todo mês de junho que se preze, e ainda mais por essas bandas, que se gaba por ter o São João mais tradicional do mundo. Eu não me importo: pra mim é um dos melhores perfumes para essa época do ano. Fumaça é coisa feita sem medida alguma para embaçar vista de gente que ignora o que essas nuvens arrotadas por árvores nos faz recordar.

* Texto publicado no dia 19 de junho de 2009, no Jornal da Paraíba.

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2 comentários

  1. Liginha! Realmente, lembrando de tudo isso, não tem como não gostar do cheiro da fumaça! Hoje sinto bastante falta da nossa infância; e agora (mais do que nunca - com a doença de vovô) é que a gente se dá conta de como nosso avô e nossa avó são sábios! Parabéns pelos textos belíssimos!!! :*
    Elizandra Montenegro

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