Quero igual a do meu avô

22:00


Eu me lembro bem daquela vez, porque tudo aconteceu à noite. E não sei por qual motivo, mas quando as coisas acontecem no escuro, me dá mais vontade de lembrá-las. Era meu aniversário de onze anos, e eu havia escolhido o presente desde o final do ano anterior. Passei as férias pensando nele, dizendo a todo mundo cada detalhe. Tamanho, peso, textura, estava tudo muitíssimo bem explicado: “Quero igualzinha a de vovô”. Da mesma cor e tudo, não tinha como errar. 

Fiz questão de repetir inúmeras vezes aos meus pais, para anular as chances de ouvir desculpas esfarrapadas e imprevistos de gente grande: Sem dinheiro. Eles tiveram um mês inteiro para me fazer essa surpresa, mas não fizeram. Deixaram para comprá-la de última hora, à noite, logo depois que meu pai chegou do trabalho. Eu já estava com os olhos marejados de água, meu queixo já ensaiava uns tremeliques de quem se prepara para chorar. Tinha separado um espaço para ela em cima da minha mesa e tudo, afastei todos os brinquedos, arrumei os lápis, empilhei orgulhosamente uma resma de papéis alvinhos. Por um instante cheguei a ficar com a mão na cintura, ali, contemplando aquele espaço. Como uma mãe com as mãos “nos quartos”, olhando bobamente o berço que vai acalentar seu bebê, eu estive por alguns segundos ali, olhando aquela mesa e pensando o que ela representara para mim depois que meu presente pousasse naquele exato lugar. 

Já era hora de fecharem o comércio, e lembro-me da minha aflição quando fui passando pela Rua João Pessoa, e vendo as prostitutas já assumindo seus postos. Aquelas mulheres ali sinalizavam o final do expediente das pessoas que trabalham atrás do balcão, e dava início a um trabalho que se faz atrás de outros lugares. Foi quando achei que era melhor desistir. Eu nunca ganharia o meu presente ali, em meio à tantas lojas fechando os olhos para dormir, em meio aqueles pares de pernas finas equilibrando-se em saltos, carregando bundas de fora. E as minhas lágrimas iam caindo na mesma velocidade com a qual aqueles homens desenrolavam as portas de ferro, colocando os cadeados na minha vontade. Achamos, então, a única loja aberta. Quero dizer, quase aberta, porque os funcionários já estavam se despedindo.

Meu pai parou o carro, e logo fui colando meu rosto no vidro. De longe avistei um monte de versões do meu presente, arregalei os olhos. Respirei aliviada sem saber que a minha frustração mal começara. Minha mãe levantou o banco do carro, saí em disparada, lançando as mãos em cima do balcão, meus olhos moviam-se rapidamente procurando ela: Quero uma igualzinha a do meu avô. Mas não tinha. Testei todas elas, o vendedor tirava e me mostrava. Eu começava a colocar os dedos por cima das teclas, mas olhava para meus pais: “Meu dedo não está afundando, e não faz aquele barulho, parece um computador”. E eu já tinha visto um computador, meu tio tinha um. Tudo bem que eu achava que computador era somente aquelas letras, porque era só aquilo me divertia mesmo. Mas eu não queria, achava muito chato. 

Queria ela, e a desejava igualzinha a do meu avô. Meus pais se entreolhavam impacientes, e eu testava mais uma. “Essa tem tomada? Não quero! Quero uma igual a do meu avô”. Apertei todas as teclas de todas as máquinas de escrever que estavam lá. Todas. Mas nenhuma era igual à máquina de escrever do meu avô. Ela era linda, pesava mais que eu, era verde-clara, e tinha algumas teclas já apagadas. Teclas lindas que pareciam caroços de feijão achatados, e tinham o espaço certinho para as pontas dos dedos. Ela se fechava como uma bolsa, e eu ficava encantada quando meu avô separava aquelas partes metálicas e a abria: Teclas pretas e gostosas de apertar. 

Meus dedos afundavam muito, e eu me aproximava para escutar o barulho seco que fazia quando o ferro apertava a fita preta e marcava o papel. Escrevia também em vermelho. Mas não pude tê-la. Acabei ganhando uma máquina de escrever que liga na tomada, porque o vendedor convenceu meu pai de que aquelas outras (e ele dizia isso com uma cara de nojo que me ferveu as bochechas!) eram antigas, verdadeiras velharias. Fiquei chateada com a falta de respeito dele ao dizer que para uma mocinha, seria melhor “essa mesmo”, porque era mais prática, mais moderna. Meu Deus, ninguém entendeu. Ninguém entendeu que eu queria uma máquina de escrever igualzinha a do meu avô, porque só uma daquelas tinha muita história pra me contar.

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