Degolou os santos porque Deus mandou

19:16




Era 7h00 da matina da sexta-feira, dia 8 de julho, quando Josenaldo Gomes de Luna emburacou no Sítio São João e quebrou os santos. Todos os bibelôs barrentos ficaram degolados. Era cabeça coroada rolando pra um lado e mantos feito de gesso rolando do outro, tudo por um motivo muito simples: reza a lenda que Deus mandou. Josenaldo, sentado em uma das cadeiras xexelentas da delegacia, jogou um olhar triste pra mim. ‘ – Tô com fome!’, disse quando nem parecia se importar por estar algemado de mãos para trás e com um montão de policiais em volta dele. Aliás, nem parecia que ele estava ali, era só uma criança. Só não era mais criança porque o peito cabeludo de homem, todo melado com as migalhas de barro dos corpinhos de santos, salpicavam a titela daquela criatura. Pra observar os restinhos de santo espalhados no próprio corpo, ele fazia bico enquanto analisava as partículas, depois olhava para os jornalistas, pra os policiais, ria.

Perguntei a idade dele e antes que ele respondesse um policial estendeu a mão na minha frente e mostrou o documento de identidade da vítima que só Deus (esse mesmo, o que mandou quebrar os santos) pra dizer se ele era acusado ou não. Enfim, tinha ele 28 anos e uma penca de músicas na ponta da língua, que ele insistia em cantarolar enquanto as equipes de televisão filmavam tudo sem saber por onde começar uma possível entrevista. Quem conseguia segurar o riso, perguntava porque ele tinha feito aquilo. Quem não conseguia, não precisava se sentir constrangido porque Josenaldo ria também.

Olhando para as câmeras, como quem responde a coisa mais óbvia do universo inteirinho, ele dizia incrédulo diante da ignorância dos repórteres: ‘Porque Deus mandou, minha filha. Tem na bíblia dizendo que venerar santo é pecado’, disse como quem conta uma história pela última vez. Diz ele que queria quebrar tudo na Praça da Bandeira, no pingo do mêi dia, chocando das véa aos pombo, mas nem deu. O administrador do Sítio São João e o coordenador artístico, João Dantas, classificou o acusado de ‘iconoclasta’ (e no momento em que ele dizia isso, alguém lá de trás gritava ‘é porque é doido mesmo, hômi, esse não bate bem não’, dizia a voz lombardiana).

Josenaldo disse que era da Assembléia de Deus, pediu pelo amor do divino pra ser solto e disse mesmo que pulou a cerca do sítio pra dar fim à santaiada toda. ‘O prejuízo foi incalculável. Ele quebrou também a difusora, quebrou a máquina de ‘fotomochila’, quebrou todo o acervo do Sítio, que são de bens imateriais’, contou João Dantas. O reboliço não durou muito e o quebra-santo-de-pau-oco foi solto porque alegaram (não sei quem) que ele era doente mental. Um dia depois Josenaldo se debandou pras bandas de Esperança e quebrou a porta e tentou derrubar as paredes do fórum da cidade. Dessa vez aí eu não tive oportunidade de perguntar a ele quem mandou fazer a presepada...

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7 comentários

  1. Mais um texto fantástico! Amei.

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  2. fazia tempo que naum passava pelo teu blog, é sempre um prazer ler suas cronicas. adoro sua sensibilidade e dominio do ofício de escrever. Meus parabens e escreva muito que precisamos de boas coisas assim para se ler.

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  3. Não tem pra ninguém. EU sou o leitor mais assíduo do Alarmes. Ótimo texto, dona Coeli! =]

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  4. Ei...muito bom o texto. Queria mesmo saber quem foi que mandou ele quebrar a porta do forum!

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  5. Lá se foi ele para Esperança, e um próximo relato com toda essa sensibilidade é difícil. Obrigado por compartilhar esse momentos!

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  6. Cá estou eu lendo novamente. Repassa esse texto pros feras de comunicação, não me canso de ler as minúcias dessa profissão! Parabéns pela escolha.

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