Chocolate, sangue e cama de casal

17:35




Deu pena ver os chocolates melados de sangue e jogados na calçada. Foram pisoteados, sofridinhos que só vendo. Era só o início da história que eu tinha que contar naquele dia, meu aniversário, e que na manhã seguinte ia ocupar algum cantinho do jornal, salpicado de outras tantas histórias doidas. Ainda sonolenta e acompanhada do fotógrafo, ficava olhando aquelas paredes manchadas de sangue, tentando imaginar como aqueles chocolates, que geralmente aparecem em propagandas de ‘Dia dos Namorados’, com corações e palavras de ‘amor’ em negrito, foram parar ali. A única coisa que eu sabia era que a polícia tinha encontrado um casal ensaguentado em cima de uma cama e o corpo de um homem na calçada.

 A história que eu inventava na minha cabeça foi interrompida pela voz de um vizinho que contou que o crime aconteceu na madrugada, no bairro da ‘Estação Velha’. Um motorista de 33 anos invadiu a casa de um vendedor e assassinou o rapaz (que depois de esfaqueado, ainda tentou fugir, justificando os chocolates melados, que ficavam em uma bomboniere próxima à porta). O motivo? Ciúmes.  É que o vendedor estava namorando uma loira bonita, também vendedora (de sapatos), 23 anos, que sorria bonito na foto que a família mostrou: ex-mulher do motorista. Depois de assassinar o rapaz, o motorista matou a mulher que ele amou um bocado, colocou o corpo dela na cama de casal (onde ela estava instantes antes com o atual namorado), se deitou ao lado dela e cometeu suicídio, passando a faca no pescoço.

Enquanto isso, o corpo do vendedor ficou estendido na calçada em tempo suficiente pra chamar atenção dos vizinhos, da polícia, dos familiares das vítimas que chegavam aos montes pra chorar a morte da moça. Eu, que cheguei atrasada, só dei de cara com os chocolates no canto da calçada. Desde então, não como um daqueles sem fazer caretinha, lembrando dos sonhos e de serenata breados de vermelho, morrendo atropelados-pisoteados, sendo forçados a atuar como enfeite trash pra cena de crime.



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