Eu lembrei da foto, do centro... e de mim!

14:43



Quando eu era criança eu não sabia o que a palavra constrangimento significava. Mas eu sentia. Sentia de um jeito muito puro e claro, daquele jeito que depois de mais velho, a gente não consegue explicar e perceber com a mesma clareza. Esse sentimento, inclusive, era mais nítido pra mim antigamente do que é hoje e acredito que parte disso se deva ao que a gente perde, ao que deixamos de sentir pelos outros. E sentir pelos outros foi o que me fez parar de ler a 'tuia' de coisas que eu estava lendo hoje a noitinha porque justo agora me veio uma cena na memória. Uma cena que vi quando criança, mas que até hoje - e sabe lá Deus o motivo! - ainda tá aqui, guardada e nítida.

Eu sempre gostei muito de caminhar pelo centro de Campina Grande. Sério, eu amo até o cheiro! Quando mainha ia consertar a panela de pressão por lá era um evento pra mim! Eu achava o máximo: pegar o busão, descer a rua XV de Novembro chacoalhando dentro daquele monte de ferro barulhento com a testa 'pregada' no vidro, deixando a marca do sebo do meu suor lá e pegando nas barras das cadeiras sem o nojo que eu teria hoje (idiota!). Livre!

E aí quando descíamos, íamos ali na rua Venâncio Neiva, onde tinha (na ordem que minha memória permite lembrar): um pastel na esquina, uma barraquinha de empada e entre essa barraca e a outra, a consertar a panela de pressão (o alvo da minha mãe), tinha um lambe-lambe! Um senhor (que nem era tão velho), que mantinha aquela parafernália que eu achava linda! Uma lona pendurada com várias fotos de gente séria e dura, daquelas que ficaram com a coluna tão reta pra sair bem na foto que dava pra ver como saltavam as peles do pescoço! Eu estava viajando nessas imagens e pensando quem seriam aquelas pessoas. Foi quando eu vi a senhorinha sentada, com joelhinhos juntos e mãos por cima deles, numa roupa meio acinzentada que dava a ela um ar de fantasma, super tímida. Nariz fino e pontudo e unhas um pouco sujas, chinela de couro e uma bolsa posta do lado, esperando ela terminar a foto.

Tinha olhos medrosos e envergonhados, porque aquela era a época da transição: aquele lambe-lambe ali estava se tornando um ponto brega e desconexo no centro, sabe? O 'chique' era tirar foto 3 x 4 de um jeito mais moderno, com aqueles fundo brancos e em locais fechados, sem ninguém pra 'mangar'. O fato é que ela se preparava para a foto justo no momento que eu estava ali perto, viajando nas fotos enquanto mainha esperava a panela ficar receber os primeiros socorros. E aí comecei a ouvir o pessoal 'gaiato' da rua que gritava, ria, fazia a palhaçada toda. Mas a senhorinha lá, de cabelos cinzas e lambidos, permaneceu olhando fixo para frente, com os lábios tremendo um pouco. E foi por um segundo, só um, que ela mudou o meu dia: desviou o olhar como quem pede socorro e aqueles olhos pretões bateram nos meus. Retos, falavam mais que qualquer livro ou filme que eu tinha lido até ali (e até hoje!), me dava mais agonia do que os olhos do meu pai quando brigava comigo!

Aí eu senti. Meu ódio veio, meu rosto ficou vermelho (e não de vergonha por ela, nunca! Sempre afastei de mim isso, prefiro a raiva do que a pena). Eu senti constrangimento por quem estava rindo! Por mim eu teria silenciado aqueles idiotas ali mesmo, teria pedido respeito com as palavras adultas que eu ainda nem tinha no vocabulário. Um palavrão bem dito, um empurrão, qualquer coisa que eu pudesse fazer pra afastar aquele lote de urubu dali e deixar a senhorinha tirar a foto dela. Registrar o rosto moreno e enrugado. Eu me lembro disso tão bem, meu Deus. Foi a primeira vez que senti covardia e constrangimento.

Minha mãe do lado nem percebeu enquanto consertava a panela de pressão, o pito e as borrachas. E enquanto isso eu só queria saber se aquela senhora ia tirar a foto certa... se estava bem, se ela ia conseguir apagar do juízo a falta de polidez e de bom senso da 'mangação' alheia. Que idiotas, que raiva, que saco, que nó na garganta! Quase não consegui comer a empada (que eu passava a porra do caminho todinho pedindo a mainha!) em paz. Nem sei se ela ainda existe mas se eu soubesse desenhar... bicho, se eu soubesse... Eu a desenharia muito bonita sentada no tamborete do lambe-lambe (e talvez até estirando o dedo discretamente) só pra lembrar a ela do quanto aquela imagem bonita (e confusa) ficou em mim.

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1 comentários

  1. Que lindo texto, pequena cometa! Avante! Como de costume passo por aqui para ler suas memórias e balbúrdias.

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