Coube na caixa?

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Eram tantos desaforos que eu tinha que registrá-los de algum modo. Eu sabia, e ainda sei, que nessa história há dois lados (ou mais, se eu procurar com mais sinceridade), mas já que o único que sobrou comigo foi o meu, eis que me ponho a falar dele mesmo: o lado meu, que chora amor perdido, que é tão besta que sequer pensou em trancar coração com cadeado, que prometeu a si mesmo que essa situação só se resolveria da maneira mais justa: prometeu amor ainda mais cego, cartas de amor ainda mais longas, e que da próxima vez, lotem um caminhão, e não uma simples caixa.

Calcinhas novas, quilos a menos, mais aventuras, menos culpa, mais entrega, mais carinho, mais e mais balanço na rede, "te amos" escritos na testa, mais nudez, menos ciúmes, talvez. Mas havia ainda algum tipo de dor que a acompanhava - era uma espécie de desespero. Às vezes ria alto, às vezes chorava tanto que ficava vermelha: a última coisa que poderia ser agora era estável. A calma estava nos seus planos, mas ela sabia que esse ainda não era o tempo de tê-la: ainda havia bagunça no seu quarto, ainda havia cheiro nas blusas, ainda havia música que não podia ser ouvida (Pink Floyd teve que sair do repertório, e Beatles, nem pensar!).

Por mais que isso já estivesse se apagando, tal qual mensagem de amor eterna-mentira escrita na calçada da vizinha com giz branco e tremida com chuva fina, ela sabia que ainda ia doer. Mas um dia ela ia passar naquela calçada, ia pisar na mensagem, ia seguir em frente. Mas não agora: impossível de ser agora! Nada poderia estar em paz enquanto existisse algo que ainda doesse, e ela foi sincera: doía, cacete! Não tinha garrafa de vinho, maço de cigarro, mesa de bar animado, paquera novo ou reunião de amigos que desse jeito: doía! Pra quê se acovardar e rir feito boneco? Doía, então que deixasse doer, sem fingir. Não tinha o que disputar: eu havia perdido tudo, e nada, ao mesmo tempo.

Antes de dormir, conversava com a irmã, desabafava, ria ao telefone, lia, escrevia, sonhava com a carreira jamais começada e ainda arranjava espaço pra uma paixão platônica que viu nascer dia desses, enquanto estava bêbada, fazendo de uma garrafa de cerveja um microfone. Essa paixão distante latejava, mas o amor que estava morrendo nela machucava mais ainda. Era só encostar a cabeça no travesseiro que podia sentir algo quente escorrendo entre-cílios: lágrimas que haviam sido poupadas e congeladas durante todo o dia, que encontravam no silêncio do quarto escuro a melhor hora pra sangrar. Existia também a sensação desoladora de acordar sozinha. Não que tivesse existido, como hábito, alguém que lhe esquentasse as costas ou fizesse cafuné durante o sono. Em algumas raras vezes, somente. O problema é que ao abrir os olhos, ela não fazia mais planos.

Só lhe restava uma reza-urgência, que solicitava a algum Santo de plantão algum tipo de força que a impedisse de chorar todas as vezes que olhasse aquela caixa de coisas-devolvidas: eram cartas dela mesma, que voltaram ao ponto de partida. Mas ela sabia que a mensagem era outra. Havia sido devolvida a si mesma, com um desdém idêntico ao do cliente que reclama aos gritos, encostando a barrigona no balcão da loja, e remoendo a ausência de funcionamento de um objeto comprado. De fato, aquela altura eu já não funcionava, e por isso também fui entregue aos gritos. Eu já não servia, e por isso fui posta de volta no local onde me encontraram.

Quem me comprou não teve a paciência de consertar, quis devolver e pronto: "Fica com isso, não me serve! Traga-me uma nova, e melhor!". Olhava aquela caixa tão grande e vazia dela mesma, que chorava rangendo os dentes ao lembrar do homem que a li a deixara. Ela precisava esquecer o rosto dele, e limpar-se com banho de água muito quente, esfregando, espumando, tirando as digitais de quem havia lhe tocado em cada milímetro de pele que fosse, e ainda assim, uma coisa ainda a deixava de pé: a certeza que aquela coisa, aquele objeto, aquela mulher mambembe (ela mesma!) que havia sido deixada no balcão, apesar de todos os defeitos, apesar de tudo, servia ainda para duas, e somente duas coisas: fazer raiva e fazer falta.

E não para quem deixou ela jogada no balcão, mas para quem pagou caro por aquilo, que viu o objeto-desejo se estilhaçar no chão, para quem teve a paciência de consertar, numa oficina-improviso colocada no quintal de casa e admitir: gosto dessa merda assim mesmo, e vou carregar esse troço comigo, debaixo do suvaco, sem deixá-la escapar de mim. Haverá um dia em que puxarão o freio de mão do meu carro, e eu vou estacionar justamente ali, no lugar determinado por quem teve a coragem de estar comigo, descendo a ladeira, sem temer esquinas ou cachorros atravessando a rua: eu nunca tive freio porque nunca houve um braço forte que me parasse - havia sempre alguém pulando minha janela de emergência.

(2010 // Ilustração: Javier Jaen) 

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