Do que não me abandona

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Empurrei a porta do meu quarto com força e ela fez barulho idêntico à minha avó quando tosse: expelindo catarro, cuspindo, gemendo. Minha porta também expelia coisa que eu tinha nojo, e eu estava precisando de uma constatação como aquela. Encontrar tudo arrumado pelo capricho de mainha, livros rentes à prancha de madeira feita pelo meu tio, organizados de um jeito que eu nunca consigo. Chão limpo, sem aqueles ciscos chatos que incomodavam meus pés molhados de banho quentinho, a minha fronha que não foi trocada: gosto de dormir sentindo meu cheiro. Cheiro de nariz, que fica no travesseiro, cheirinho do shampoo cor de rosa, de saliva que escorre enquanto durmo de boca aberta.

É ótimo isso: saber que estou dormindo com a cabeça encostada no que eu sei que sou, nos cabelos caídos, nas secreções que me escapam. Nada mais reconfortante do que a sensação de reconhecer o meu edredom pelo cheiro, diferenciado ele dos muitos que minha mãe compra iguais para as minhas irmãs. Gosto de toda sujeira que se acumula em minha cama: pedaço de unha cortada, pêlo de cachorro que já morreu, fiapo de roupa, contas de restaurante barato amassadas, segredos e cheiro ruim de moedas guardadas no cofre (é que às vezes espalho tudo em cima da cama pra contar quanto já tenho). Eu gosto de tudo o que não me abandona, existe auto-sabotagem maior que essa?

Eu sei que irei sempre esticar o cabelo, pintá-lo de preto, a cor que se repete nas unhas, e vestir as mesmas roupas. Vou agir como sempre: mergulhada na própria consciência e incômodo. Ia olhar mais uma vez para todas as pessoas e imaginar as suas vidas, como eu sempre faço quando vejo muita gente reunida. "Que estranho e desolador é ter a companhia de pessoas novas todos os dias": pensei nisso tantas vezes. Como é enfadonho conhecer gente, é um tédio. Pra quê? Eu gostava do que já tinha, e tudo o mais que soava como novidade, pra mim não passava de suor gasto à toa e conveniência.

Vê só o desespero delas com o cigarro na pontinha dos dedos, segurado sem vontade. É meio que um requisito, sei lá, uma senha secreta que se espera receber, e ao entrar no lugar proibido, só se enxerga pessoas sentadas em sofás, entediadas. Faço isso às vezes, pratico o que não gosto porque tenho esperança de gostar de algo além da aventura de descobrir novas decorações em quartos de motéis, comer, dormir, e escrever idiotices num diário dado pelo meu avó, guardado na gaveta da minha cama - de modelo breguíssimo, devo dizer.

Não gosto do jeito como elas tentam ser rock, é tão piegas usar roupas assim. Sei lá, esse improviso que possuem em beber e ficarem inclinando a cabeça para trás, rindo de quê? Eu não entendo. Não tô usando os olhos de mainha, sei que não. Aliás, mainha sempre foi muito mais punk que toda essa gente junta. Ela coloca som alto, inventa suas próprias bijuterias, conversa com cachorro como se fosse gente, e eu já vi ela quebrar um telefone, de tão tinhosa que era: queria um novo, e se o requisito era ter o antigo sem funcionar, tudo bem. Quebrava-o em pedacinhos no quintal, chorando lágrimas de criança contrariada. Também preciso quebrar muita coisa que não gosto, mas como se quebra gente sem fazê-las chorar?

Como posso despedaça-las sem o perigo de deixar um resquício sequer em mim? Não posso. Tenho que mastigá-las fastidiosamente até que estejam bem trituradas e postas confortavelmente no meu estômago, e virá o dia em que eu meterei o dedo na goela e as vomitarei em num banheiro de shopping qualquer, em atitude desesperada e surpresa, como quem tem enjoo constatado por causa de uma gravidez-castigo que macula adolescência.

(2008 // Ilustração: Javier Jaen)







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