Pus

21:33


Desde muito cedo eu farejei nele o apreço à hostilidade. Como ele acha bonito, você precisa ver como os olhos dele brilham quando vê que conseguiu deixar alguém calado com suas palavras mágicas de ignorância e desprezo. Parece que cada letra é sobreposta à outra, dando a ele um pedestal luminoso de agressividade gratuita. E vai subindo degrau por degrau, na pontinha dos pés, olhando de vez em quando para trás, certificando-se de que seus súditos estão flamejando olhares de admiração. 

Observo o modo de apreciar as respostas ásperas como o seu casaco, como o chão da sala, como a sua própria língua. De fato, não havia como esperar palavras aveludadas de quem sente simpatia pelo desdém. Não diria que ele era infeliz com isso, porque estranhamente algumas pessoas conseguem alcançar o prazer por meio de navalhadas nas almas alheias, fazendo saltar sangue transparente com gosto de sal de seus olhos. Se até onde ele me devorasse fosse em pele, era bobagem, superficialidade. Cicatrizaria rápido com algum tipo de cuidado vindo só da minha parte. Se ele ao menos tivesse cortado meus cabelos, ou minhas unhas. Mas ele me feriu em outro lugar, onde pomada alguma alcança. 

Ali só se ajeita com palavras, especialmente as não ditas. Então não tem cura, visto que não se cura o que não se disse quando já passou, porque eu nem saberia se ele ia falar mesmo. Ele me machucou bem no meio do peito, e desde então só cuspo coisa com gosto ruim. Estou evitando ao máximo ser assim como ele, embora não me falte vontade. O que sai da minha boca não é arrogância não, o que tenho cuspido é pus.

(Outubro de 2008 // Ilustração: Javier Jaen)

Veja também

0 comentários