El Morado: um paraíso no Chile

07:45



Minhas pernas tremiam e até hoje não sei explicar direito se era de frio ou felicidade doida. Se existiu um dia onde eu recuperei a alegria no sentido mais genuíno, mais puro, bruto e infantil, esse dia foi no Chile. Já dentro do ônibus que me levava ao Monumento Natural El Morado me dava vontade de chorar. Sério, eu fiquei com um nó na garganta, uma alegria que penetrava através dos meus olhos (a estrada é linda!) e se conectava direto com a alma. Foi inevitável o sentimento de gratidão ao ver aquilo tudo. Eu não acreditava que merecia... ainda nem acredito! O Chile conquistou meu coração e honestamente, não vejo a hora de recomeçar a juntar as pratinhas e voltar pra lá. 



A viagem foi em dezembro de 2015 e fiquei hospedada pelo Airbnb na casa de um chileno super-hiper educado, um doce. Um dia antes, havia dado uma voltinha em Santiago mas a minha ansiedade era mesmo conhecer o El Morado e saber se era de fato tão bonito quanto nas fotos que eu vi na internet. Para a minha sorte, é de uma beleza que é simplesmente impossível colocar num quadradinho. Eu respirava fundo, girava o corpo, olhava para o céu e para a terra tentando captar e guardar um pouco daquela imensidão dentro de mim. Eu queria gritar, queria levar todas as pessoas que amo pra lá, a necessidade de dividir aquilo me tomou por completo. Parece brega mas foi quando de fato eu tive certeza de que existia algo-alguém olhando por nós aqui, viu? Intenso.


Como chegar
Primeiro, acorde cedo e não cometa o mesmo erro que eu: era domingo e fui correndo até a estação de Metrô (no meu caso era a Lovial, que fica no bairro onde eu me hospedei) mas para a minha surpresa os portões estavam fechadinhos! Anota aí. Nada de metrô às 6h no fim de semana, lição aprendida. O desespero bateu pois o primeiro ônibus para Cajón del Maipo (onde fica esse paraíso!) saía às 7h e eu (ansiosa às tuias!) queria aproveitar ao máximo. 

Sem contar muita conversa, o negócio foi "dar com a mão" pra o primeiro taxista que passava na rua, gastar meu espanhol engraçado e em minutos chegaria no Terminal de Metrobuses Bella Vista. Pronto, pague 8 mil pesos e prepare o pescoço: sair da janela do busão da Tur Maipo é quase impossível durante os quase 100 km de viagem. Montanhas, um pouco de neve no topo delas, água caindo em cascata e para completar, o ônibus onde eu estava era pilotado por um motorista hiper figura. Doido, pra ser boazinha! :P Se eu fechar o olho consigo recordar o tanto de adesivos do Boneco Assassino que ele saiu tacando dentro do ônibus. Depois de muito balançar, pular do banco, rir das presepadas do motorista e me emocionar com o que via pela janela, o destino! 


A entrada para o Monumento custa em torno de 10 mil pesos. Você assina uma lista em um ponto de apoio e pronto, tem até às 17h para caminhar por esse paraíso! Era Verão e muita gente disse que fazia o maior calor mas eu me acabei de frio! O quentinho do sol não foi suficiente e só consegui me mover usando uma blusa, dois casacos e ainda assim me tremia toda, arrepiada o tempo todo - e pra ser honesta gostei muito. O vento gelado entrando no corpo me dava a sensação de estar purificando tudo e a minha ansiedade era tanta que se eu pudesse, abriria a boca e engolia toda aquela paisagem pra guardar bem dentro de mim. Que lugar lindo!



Ao todo foram cinco horas de caminhada e pouco mais de oito quilômetros, se me recordo bem. Uma paisagem mais linda que outra e sinceramente, eu gastaria a ponta dos meus dedos até o fim da vida e não conseguiria descrever o quanto esse lugar é mágico e o quanto esse passeio tocou meu espírito. Só o barulho dos pés caminhando, vez ou outra um ruído de água caindo, muito verde, um pouco de neve nas montanhas e dentro de mim uma sensação de estar perto de quem eu sou de verdade. Uma liberdade dirigida, sentida a cada passada, a cada vontade de chorar que eu disfarçava pra não parecer tão idiota por me contentar com coisas tão "bestas" e até normais pra tanta gente. 


Confesso que fiquei com medo de ir até o final da trilha, a meta da maioria do pessoal que estava visitando o local no dia era justamente chegar até o lugar onde ainda havia neve, acabei não indo e me arrependo um pouco. Mais um motivo para um dia voltar, preciso mesmo. Ao retornar para esperar o busão de volta (já super cansada e desejando um banho quentinho) parei um pouco perto de um riachinho por onde corria a água geladinha da cordilheira. Rezei, agradeci, fiquei conversando comigo mesma e queria ficar em silêncio e não ter aquele momento atrapalhado por nada que não fosse real. Justo agora, como me sinto escrevendo isso. Molhei minhas mãos e agora, ao relembrar isso tudo, compreendo o quanto isso foi simbólico pra mim. 

"Nós não podemos nunca entrar no mesmo rio, pois como as águas, nós mesmos já somos outros"

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