ESTRANHEZA

19:21


A distância física era muito pouca. Do sofá até a cadeira da mesa de jantar, quase nada. Mas quando olhei bem nos olhos do homem (era homem àquela altura?) eu o desconheci totalmente. Com uma cerveja na mão, cuspia palavras e frases que pareciam não pertencer nunca ao seu vocabulário. Eram ideias que, se antes existiam, estavam bem camufladas sob a capa de um rapaz que até pouco tempo sonhava e se esforçava em ser um pouco melhor. Um pouco mais culto, um pouco mais bem humorado e um pouco mais respeitoso que os demais. Era.

Quando observei bem aquela pessoa me dei conta que não era ela a pessoa que eu gostava. Sei que um dia foi, eu sei... mas naquela noite de janeiro não era. Quando nos apaixonamos por alguém uma das primeiras coisas que nos chama a atenção é o fato dela ser um pouco diferente dos demais. É mais ou menos como caminhar pela rua e todo mundo que passa por você vestir cinza... e de repente, alguém com um colorido diferente se destaca. É isso!

Mas nessa noite foi diferente e ruim... eu vi uma pessoa cinza. De olhar rabugento e pobre, com um vazio na alma e uma vulgaridade que me deixou ao mesmo tempo triste e raivosa. Quem era esse? Quem era aquele amigo dele que até pouco tempo atrás me parecia tão estúpido e agora estava sendo mais sensato do que ele? Como quem estancou na estrada, aquele homem de aparência gasta me olhava como quem não podia me dar mais absolutamente nada. Olhos que já me salvaram e acalentaram tantas vezes estavam além de vazios, brutos. Duros, ásperos e sem cor. Nem sei se eu queria ser observada por eles... críticos, sem alma.

Eu o olhava sem a paciência que eu tinha na adolescência de tolerar a imbecilidade inocente daquela época. É verdade, a paixão (e  não o amor) nos faz mais conivente diante dos abismos do outro. Mas agora a imbecilidade mostrada ali soava bem mais que intolerável, era desrespeitosa e desnecessária e por fim, era burra! Se eu o conhecesse hoje, me apaixonaria por ele? Definitivamente não. Eu fui atraída pela pessoa em potencial, mas as coisas foram mudando e quando uma configuração atualizada da "coisa" chegou, eu já desconhecia. O ritmo se foi, os passos são outros e as ideias... tão longes.

Sabe quando você desiste de alguém? Quando você tem um mundo de ideias explodindo dentro de você, um montão de frases sobre tudo, pensamentos bestas, doidos ou que você considera sérios. Cores, medos, sonhos, risadas... tudo! Mas ao olhar para o outro, você simplesmente não quer compartilhar nada. Nada! Antes, eu nem precisaria falar pois havia uma sensação maravilhosa de ser entendida... mas hoje, mesmo que eu tentasse, ele não entenderia. Mesmo que eu me esforçasse, não me ouviria. Ia ver só o mais raso, ia ver o que estava acostumado a ver, o que queria ver e não o que eu estaria mostrando. As mentiras, antes inocentes, agora eu as considero estúpidas demais pra aceitar... as risadas mais pareciam afrontas do que compartilhamento de energia. Tudo parecia ser desperdício.

Se eu fosse falar de ontem... se eu fosse, eu diria muito. Da sua infantilidade triste e constrangedora, da sua pobreza espiritual, do seu vazio, de você ser tanto nada. Mas tô cansada e só queria dizer que talvez não somos muito... já fomos? E você? Quem é você hoje? Definitivamente não é a pessoa pela qual eu me apaixonaria ao cruzar pela rua. E a sua opinião sobre mim? Não importa... você é só um estranho que cruza a rua.

(E-mail, janeiro de 2016)

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