Antes da viagem, o reboco :)

06:24

Foto: tirada ao passar por uma das ruas do Centro Histórico de São Luís :)
Se existisse um campeonato de golpeamento modalidade "bater valendo na caixa dos peito", a medalha já poderia ser entregue a 2016. Um acúmulo de mudanças (de emprego principalmente), perdas, decepções e dores, pontadinhas no coração e vontade de fugir: foi com essa sensação que entrei no avião com destino à São Luís. Me disseram que a cidade era colorida e tinha um astral incrível, então pensei que seria bom caminhar em silêncio e sentir isso tudo. Depois de pensar em desistir mil vezes, recebi o aval da minha psicóloga e da minha família. Perguntei ainda a alguns amigos próximos se era seguro que eu viajasse com um juízo tão cheio e eles me respondiam que sim, rindo do meu medo infantil e me presenteando com uma confiança e uma força que eu nem sabia se merecia. Rezei um bocado, juntei o resto de fôlego que podia e fui.

De verdade, a sensação era a de que eu estava indo no banheiro lavar o rosto depois de muito chorar como acontecia na época da escola, sabe? Eu nunca esqueço do que se passava comigo nessas situações. Logo-logo eu ia retornar à sala de aula com a ponta do nariz ainda vermelha, envergonhada pelos meus olhos inchados e parecendo que tinha caído xampu neles. E putz, que bilas grandes e indisfarçáveis essas que eu tenho, cara. Pois bem, ia sentar na minha cadeira e continuar a estudar, pegando o lápis meio sem jeito. Mesmo escondendo o rosto com o cabelo, sentindo o nariz escorrendo gotinhas nojentas e lágrimas quentes, eu sabia: tudo ia dar certo no final do dia.

Minha mãe ia me buscar na escola, eu ia para casa assistir TV durante a tarde e ia receber vitamina de banana enquanto sentava de perna aberta no sofá. Poderia ser melhor? Àquela altura, não. E era essa a sensação que tive ao fazer essa viagem, ia entrar no quarto do hostel e dormir, acordar, silenciar com meu programa favorito: escrever tudo o que eu sentia. Maaaas, com a sutil diferença que ali eu não chorava pela briguinha com o colega de sala. Era a perda. A morte da minha sobrinha, uma dor que eu não sabia como dar nome. Ainda arranjei espaço para enfiar na mochila a agonia de uma separação que exigia de mim toda a força e silêncio que eu tivesse condições de dar à minha alma. Era uma urgência de amadurecimento que me assustava (e assusta, ainda). Mas eu precisava.

Se alguém me pergunta como eu quero atravessar a minha dor eu claramente posso responder: com pureza. Quero honestidade transparente em cada lágrima. Pode chegar batendo na titela que eu dou conta e não vou me acovardar enfiando risada onde não cabe. Ao conversar com um amigo meu ontem ouvi dele que "nunca tinha visto alguém passar por uma situação assim com tanta personalidade". Eu ri e achei poético mas... personalidade? Como? Honestamente acho que isso tudo que eu sinto é até fraqueza e burrice mas adivinhem! Tô apostando nisso mesmo... na minha teimosia, no ímpeto de vencer (a mim mesma!) pois ser tinhosa é uma coisa que gosto e principalmente que me salva.

A dor me invade e eu não luto, não tô conseguindo medir força com nada e nem ninguém. Aliás, já consegui? A dor (que também é física) dá uma furadinha no peito, invade e ao invés de rebater eu simplesmente deixo ela bagunçar tudo, como uma criança que entra num apartamento e sai tirando todos os objetos de decoração do lugar. Mas tem um limite, certo? Aquele enfeite especial, aquela peça que você não permite que toque e aí, opa! Aí não rola e eu levanto do sofá e vou lá puxar, interferir. Assim também tenho limite com as presepadas da dor mas negar a visita é covardia e não quero. "Mas tu tinha um astral, uma energia, tua risada era tão gostosa", calma! Repito agora o que a psicóloga diz sempre: "você é humana". Ufa! Sou... e tudo isso que hoje mais do que nunca sei que tenho em mim (pois lateja muito!) não morreu, está cochilando enquanto a minha parte que dói passa o reboco nas paredes. Não quero visita especial vendo tudo caindo aos pedaços. É preciso suar, reformar, mudar, arrastar móveis, jogar fora.

Mas voltando à viagem... bom, assim era a viagem ao Maranhão: a oportunidade de chorar no banheiro da escola, rir da minha cara inchada no espelho, deixar fluir o medo de voltar para a sala e encarar todos os coleguinhas me olhando (uns com pena, outros com o olhar triunfante de ver a dor no outro), ver até onde isso ia me levar e esperar por vida. Mais vida, que certamente vai chegar mas como sempre eu não tenho paciência de esperar.

Uma mochila, um caderninho, caneta, uma câmera recém comprada com o dinheiro de um freelancer, pouca grana e zero vergonha de chorar em público. Posso corrigir? De sentir em público. Assim entrei no avião. O que chega vem sem freio e eu não tô disfarçando. Se é de rir, eu vou gaitar e se for chorar, simbora abrir o berreiro! A viagem foi ótima, mas devo admitir... ela serviu pra constatar o que eu poderia ter enxergado aqui mesmo, no meu quarto, de onde escrevo esse texto no quentinho do meu apartamento enquanto a chuva cai lá fora: "isso também passa" :)

 Lo que siento es original.

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7 comentários

  1. Tão duro ter que mudar, né. Às vezes a gente não pede e nem quer. Às vezes a gente pede, quer e quando chega a hora a gente acha que não vamos dar conta. Eu tenho desde o ano passado me deparado com mudanças e a coisa mais incrível de tudo nesse tempo é o quanto as pessoas são receptivas quando você se mostra aberto às dores. CHorar, falar, sorrir menos que as pessoas estão acostumadas a llhe ver fazendo... ficar calado mais do que o normal... enfim, a gente muda muita coisa e aprende tanto! É bom e é bom ver teu blog de novo. Sempre gostei do teu jeito de ver e escrever a vida.

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    1. Obrigada, Ielisson. E é bem verdade o que você disse... Eu temia muito admitir dor e tristeza por achar que não haveria receptividade para isso por parte dos amigos, de quem cuida. Mas existe... e salva, muito. Mais uma vez, obrigada!

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. "A dor me invade e eu não luto, não tô conseguindo medir força com nada e nem ninguém."

    Adorei ter terminado minha noite de sábado lendo seu texto. Que bom que aí da existem blogs e seu é lindo. Adorei suas descrições e todas palavras-sentires

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    1. Eveline, vindo de você essas palavras se tornam ainda mais intensas. E que responsabilidade que você me dá... e que gratidão! Obrigada, de verdade!

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  3. "A dor me invade e eu não luto, não tô conseguindo medir força com nada e nem ninguém."

    Adorei ter terminado minha noite de sábado lendo seu texto. Que bom que aí da existem blogs e seu é lindo. Adorei suas descrições e todas palavras-sentires

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  4. Minha amiga, preciso te dizer: ler você é melhor que terapia. Quando a gente compartilha parece que a dor diminui, né? Acredito plenamente nisso! E na transmissão de energias abençoadas da prece e do bem-querer. Uma prece por seu momento, Liginha. Se eu pudesse estaria com você.

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