Eu não quero fugir com o circo

08:29


Sempre tive agonia extrema de abandono e negligência. Nunca quis "fugir com o circo" e sempre tive raiva dessa expressão. Sério, quando era pequena começava a pensar na tristeza de quem ficaria e o vazio no peito de quem foi. Ficava a imaginar o carro colorido indo embora numa estrada de terra, levantando poeira e levando aquela alegria fingida dos palhaços, a beleza maquiada das dançarinas, os bichos dopados, a lona, o silêncio deixando a cidade cinza. Fugir, aliás, é um traço de covardia que eu monitoro em mim o tempo todo e na mesma medida que isso me salvou também me afundou muito.

Por medo de pensar estar fugindo eu acabei colocando muito peso onde não deveria, criando raízes e tentando salvar o que pela lei natural da vida precisa ser renovado: trabalho, amizades, amor, tudo! Desde que eu me mudei para a minha casa (e sim, eu "iencho" a boca pra usar o minha pois isso mudou completamente a maneira de me posicionar diante do mundo) passei a ter mais coragem.

Se for pra ver algo agonizar e morrer mas sabendo que isso fará diferença no meu processo de endurecimento e emancipação, tranquilo, manda nos peito! O medo que eu tinha antes se transformou em espécie de consciência, santo remédio, parte do caminho. Eu vou ficar lá, sim. Vou pastorar a dor até que ela vire pó. Vou tremer, vou ranger os dentes, vou ficar em pânico mas as bilas estarão tão arregaladas e fixas ao olhar o que morre que vão começar a lacrimejar, arder e por fim... limpar a visão. Feito isso é hora de fechar o túmulo, jogar a florzinha e esperar que o que ficou na cova morra bem sóifocado com as venta cheia de terra.

Sei elencar por ordem de faniquito na escala Richter as frases que me deixam extremamente puta da vida: "deixa pra lá", "tu que sabe", "decide aí"... ir embora com o circo, abandonar, virar as costas. Todas elas causam tremores em cada um dos meus nervos por um motivo muito simples: eu não tenho muita tolerância com quem não sonha. Não aprendi a lidar com quem não sabe o que quer, com quem não tem tesão pela vida, com quem é indiferente. Eu gosto de escolher, de mudar, de me sentir viva, de ser falante, falafusa, falafosa, gritando, gemendo & chorando nesse vale de lágrimas, falando alto e movendo muito as mãos, sendo ansiosa e sonhando besta e porra... não quero perder essa habilidade. Sou barulho mesmo, chinelo arrastando, bater de móveis e risada mundiça. Bato a porta com força mesmo se estiver feliz. Sendo peito aberto eu tinha medo de ser isso tudo e achava que eu era muito escrota por não ser indulgente com as pessoas, sem perceber que por elas eu estava matando o que eu tinha de bom e doido em mim. Pensava que deveria ir no ritmo, ficava com a consciência pesada, maior idiotice.

Descobri que a minha estupidez e a falta de respeito comigo mesma têm um limite. Sei pois cheguei nele, vi, doeu e eu fui lá meter o dedo na pereba. Amo tirar as casquinhas perebosas pois sei que daqui a pouco a pele vai sarar novamente. Novo, novo! Saí tombando com tudo, revirando cada pedaço de vida e encaixando tudo no lugar certinho e eu sabia que para tudo tinha um preço até que eu conseguisse compreender o meu valor. E depois de tanta trupicada, tiro, porrada & bomba, atravessar tanta coisa no escuro, a recompensa veio. Viver com retidão e compromisso com o que a gente sente e acredita faz a gente perder muito (pessoas, coisas, dinheiro, esperança, tudo!) mas é um prazer honesto, limpo, branco-brancura de água sanitária.

Hoje eu compreendo o sentido da paz e o gosto de uma solidão que não é vingativa, combativa, carente ou cheia de remorsos. É uma solidão escolhida e emancipatória, justa, verdadeira e que me faz rir chorando todas as vezes que eu penso: eu consegui! Apesar das rabiadas todas da vida, eu fiz o curso que eu queria, trabalho com coração e alma na profissão que amo, fui honesta no sentir com os outros, não tive medo de chorar quando o medo chegava e nem de rir quando a alegria me visitava, viajei com a pouca grana que tive, tive coragem de tentar vencer a mim mesma - e ainda tô no ringue com essa doida! Não pode haver nada de fora que eu possa temer, é tudo muito em mim. E se essa constatação antes me deixava em pânico, hoje é o que me alivia. Só há uma pessoa a combater, eu. Só há uma pessoa a ganhar com isso tudo, eu. :)

Entendo hoje um pouco do que pode ser plenitude... e não é muito, não tem brilhos, fogos, vaidade, e não tem absolutamente ninguém olhando: é chegar na casa que você construiu com os próprios medos, lutas e fraquezas, dar uma cafungada na patinha da sua gata e sentir a catinguinha azeda do grudinho (adoro cheiro estranho) alisar os pelos cinzentos da sua cachorra de olhar manhoso, encostar a cabeça na fronha com o cheiro do seu próprio cabelo e saber que tudo isso envolve uma honestidade que ninguém tira.

É deitar na cama depois de conversar com as suas irmãs e pensar que caramba, se eu morresse hoje, iria feliz... fiz tudo o que eu queria, apesar da pouca idade amei tanto, ri tanto, levantei, caí, sou tão sortuda por ter amigos que cuidam de mim, por ter com quem compartilhar minhas doidices. Puta que pariu... eu não minto mais! Percebe a força disso? Eu tenho o que eu quero e não o que escolhem pra mim, vivo com o que e quem eu gosto e não somente o que me oferecem, o que "apareceu". Não quero nada de beira de estrada, eu quero engolir o caminho inteiro, quero passar, sentir. Consciente da sinceridade comigo mesma eu não minto pra mais ninguém e nem acho que preciso das mentiras alheias para ficar de pé. A vida nem pede muito da gente... é justiça e coragem, e só.

"Dar colo para a dor é ser herói de si mesmo" :D

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1 comentários

  1. Esse texto já arquivei nos documentos da minha vida. Obrigada por essas palavras, Ligia.
    Acontece com você, mas que serviu de exemplo pra mim.

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