Parte I - Buenos Aires para quem?

11:39


Todas as vezes que tenho medo de viajar por causa de grana lembro muito do que a minha irmã diz: "Numa cidade grande tem muita gente que vive com pouco e precisa sair pra trabalhar, comer e voltar pra casa". Andar como essas pessoas andam, comer o que elas comem e tentar sentir o que elas sentem. É isso! Quando viajo tento ser mais essas pessoas do que propriamente turista. É claro que se o orçamento estiver mais tranquilo eu vou avacalhar nos passeios, conhecer restaurantes legais e tal e tal, mas se não rolar, vou me divertir com o que tenho no bolso e pronto!

Digo isso antes de começar a contar sobre essa viagem pois ouvi e percebi de muita gente esse medo do "dinheiro de viajar". Um dos meus melhores amigos trabalha em uma agência de turismo e comenta muito comigo essa obsessão que as pessoas tem de buscar luxo nas viagens, às vezes até um conforto maior do que elas tem na própria casa. Sei que às vezes a situação pede (uma viagem romântica, de comemoração e tal) mas não acho que a gente deva travar uma vontade, um sonho, só de pensar que tem que passar uma vida juntando o dinheiro de uma viagem que vai durar cinco dias.

No final das contas viajar é criar memórias e não tem coisa mais poderosa e libertadora do que estar num lugar e do nada se lembrar de uma situação engraçada ou emocionante de uma viagem que você fez. Percebe? O sorriso da gente fica tão diferente nessas horas. É tudo tão nosso! É nesse instante que a gente compreende que dinheiro não compra felicidade mas que também pode ser muita burrice não usar o que se ganha pra ser feliz. Pouco ou muito, pega o bisaco e vai! :)


Buenos Aires por quê? 
Essa viagem foi uma dívida que paguei com a minha consciência. Meu avô Leonardo (pai da minha mãe) vai fazer 80 anos. Ele sempre amou livros, tinha uma máquina de escrever que marcou a minha infância, e disse que antes de morrer (olha o drama, vovô!) queria conhecer Buenos Aires. Tudo bem, tudo lindo, se não tivesse um agravante: ele está perdendo a memória. E eu não tinha noção do quanto o problema era grave até voltar dessa viagem com ele.

Coisas simples como sair de um restaurante e não saber para que lado seguir, ficar extremamente irritado e assustado por não lembrar de algo e não querer que a gente perceba. Em outros momentos ele se comportava como criança, ficava feliz, dava pulos, gritava de alegria. A mudança de humor foi constante e mesmo se demonstrando alegre-triste-preocupado uma coisa era certa, ele lembrava o tempo todo da cachorrinha dele, Mel.


Ainda bem que adiantei essa viagem o quanto pude, achei as passagens em abril (R$ 1 mil ida e volta pela Gol) e agendei para os dias 23 a 27 de junho de 2016. Justamente com medo de fazer tudo sozinha com ele, chamei Tia Marina para ir comigo e putz, não poderia ter dado mais certo! Sabe aquelas tias super alegres, se divertem com tudo, super alto astral? Eu tenho uma e é ela!


Hospedagem salva-vidas!
Em relação a hospedagem, diferente de quando eu visitei o Chile, Porto Alegre e São Luís, não fiquei hospedada pelo Airbnb (te amo!) e o motivo? Meu avô tem muito pantim em sair de casa então pensei que quanto mais impessoal o lugar, melhor! Ficamos no Mundial Hotel e devo dizer: agradeço dia e noite pela escolha! A hospedagem foi $ 1.400,00 (em pesos) ou seja, maravilhosos R$ 363 reais por pessoa, por cinco noites com café da manhã incluso! Se é um hotel luxuoso? Nem de longe.

Seria o hotel para você levar a sua namorada e impressionar ela? Nops. É um hotel basicão, super antigo, café da manhã honesto, com elevador daqueles todo de ferro e funcionários super educados. Indicaria para viagens em família ou para grupos de amigos que não buscam viagem fancy. É o tipo do hotel chegou, banhou, dormiu, acordou, saiu, valeu & falou! O ponto alto: a localização! Ele fica na Avenida Mayo: metrô, restaurantes, pontos de ônibus e pontos turísticos estarão todos pertinhos de você! É também super perto do Congresso de La Nación, onde fiz essa foto tangendo umas pombas, hahaha. :)


O que ver?
Existem inúmeras Buenos Aires para conhecer: saindo em excursão do hotel, tomando vinho com Parrilla em Puerto Madero e reservando as noites para assistir show de tango com menus recheadíssimos ou andando de metrô, comendo choripan (sanduichão feito na rua, geralmente com o plus grude-de-unha para dar aquela sustança) e vendo apresentações de dança no meio da rua. Faça o que você pode mas faça e vá, a cidade vai te encantar de todo jeito. No nosso caso, a localização do hotel ajudou muito, muito mesmo a fazer quase tudo a pé.

No período em que fiz essa viagem não gastei mais do que R$ 150 por dia, incluindo transporte, comida e compra de presentes. Se preparem pois o que tem de dica #Coidipobi não tá no gibi! O primeiro dia de viagem sempre dedico para conhecer as redondezas de onde estou hospedada. Vou mapeando onde tem supermercado, restaurante, padaria, farmácia, tudo! Depois que eu me ambiento bem (até pra ver direitinho caso eu esteja dentro de táxi/ônibus e precisar pedir parada) é que eu vou explorando o resto. Feito isso, fomos para o basicão: caminhamos até a Plaza de Mayo, onde fica a Casa Rosada e de lá fomos andando até Puerto Madero.


Em Puerto (pia eu já íntima) tem muitos restaurantes com opções de pratos variando de 200 a 350 pesos e não me incomodaria em passar uma tarde inteira lá em um dos restaurantes bebendo um vinho, hahaha. Mas como a ideia era bater perna, seguimos caminhando reto toda a vida e chegamos até uma fragata. É um passeio bem turistiquinho mesmo mas eu, meu avô e minha tia adoramos! Por cinco pesos você conhece a Fragata Presidente Sarmiento, uma embarcação que virou museu. Foi lá onde fiz essa bela imagem que ilustra claramente a ideia de "tentar mudar o rumo da minha vida", hahaha!


Depois disso hora de caminhar até o bairro de San Telmo. Fizemos um almoço-lanche-da-tarde no restaurante Medio y Medio. Pedi uma soja empanada que não recomendo, deu bem ruim, batata frita e cerveja para comemorar a vida! Ihu! Deu cerca de 150 pesos por pessoa e o que eu mais gostei é que o lugar fica bem pertinho de onde está a estátua da Mafalda. Eu estava tão ansiosa (mas tão, tão) pra tirar uma foto com essa cabeçuda que passei o almoço inteeeeiro olhando pra esquina, como se aquela demonha fosse sair de lá, né? HAHAHAHAHA! Gente do céu, mais uma nóia pra levar pra psicóloga no próximo encontro. #MimAjudaDeus


O que ficou em mim?
As festas juninas sempre fizeram meu coração bater mais forte mas com tanta mudança na minha vida, pensar nelas estava me dando medo, por isso que mexi todos os pauzinhos para fazer uma viagem juuuustamente nessa época (sou #truqueira, querida)!  "Você deve construir novas lembranças do seu São João", quando ouvi isso na psicoterapia fiquei pensando no quanto seria importante dar ao meu juízo novos caminhos, novas informações (menos caóticas e dolorosas) para acessar aos poucos, fazendo assim com que eu me prendesse menos ao que passou e trabalhar positivamente a minha ansiedade para o que estava para chegar. A Argentina funcionou nisso! :D


Resumindo: sabe quando você quer fechar os olhos e lembrar de uma coisa sendo ela inteiramente boa? Toda pura, sem aquele "mas", sem aquela sensação ruim de abandono, sem aquela solidão doida que me perseguia e eu fingia não ver por achar que estava tudo bem e blá, blá, blá. Ser, sem precisar agradar, sem toda aquela agonia mentirosa, sem presunção, com simplicidade. Pronto, eu queria lembrar de uma viagem simplesmente pelo que ela foi. E foi com essa decisão que eu quis ir a Buenos Aires. "Esse caminho tem coração?" - todo, do começo ao fim! E não viajar sozinha nesse caso foi a melhor decisão pois eu pude trabalhar o meu egoísmo e enxergar mais o outro... e esse outro em questão era o meu avô e confesso, como exige paciência. O esquecimento irrita, é como se você não fosse boa ou clara ou direta o suficiente para fazer o outro lembrar do que você acabou de dizer. Tá vendo aí o egoísmo? É não se importar com a agonia do outro mas no seu próprio incômodo de repetir. Doeu um pouco perceber isso em mim. :~

Estar acompanhada do meu avô e entender essa viagem como um presente para ele me deixou aliviada. Ter estreitado ainda mais os laços com a minha tia (tão alegre, tão sábia, tão leve!) foi mágico. Eu sabia que tinha que cuidar do meu avô, mas foi meio que um ciclo... eu cuidava das coisas práticas (trocar dinheiro, perguntar onde pega o ônibus, reservar hotel) , mas juntas eu e Tia Marina (aí na foto, haha!) cuidávamos dele, e ela sem nem saber cuidava de mim. Com uma risada, com uma foto tirada, com palavras de apoio, gravando Snapchats idiotas, tomando café... sendo família.


Hoje, mais do que nunca, entendo o poder de ter laços assim. E a minha família tão doida (que fala alto, que é amundiçada, agoniada, "estressada") é também muito batalhadora, sonhadora e me dá chão. Me dá o conforto de ter onde me encostar quando preciso de um lugar quentinho e é nela e por ela que me refaço todos os dias. ;)

Bom, para começo de conversa é isso... Na próxima postagem coloco mais detalhes de passeios e dicas pra escapar das ciladas pega-turistas, do meu barraco no Caminito (már menino, com truque pra cima de mim?) e dos micos ao pedir comidas. Fui! :*

Veja também

3 comentários

  1. Hahaha. Amando esse post. E acho que estou precisando se uma viagem assim. Bem pé no chão, bem real. A avó do meu #crush também está perdendo a memória. É muito dolorido pra quem está do lado de cá, mas é um aprendizado diário. Adorei ler sobre sua viagem e você está me dando coragem pra repensar essa coisa de grana em viagens.

    Beijos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ai, Renata! Tu és tão desenrolada, danada & aventureira que vai se virar bonito no destino que vocês quiser! Hahahaha! Obrigada por ler-ver-sentir junto, a ideia desse "Querido Diário" é essa e eu fico feito minino-besta, toda contente quando alguém vive isso comigo! <3

      Excluir
  2. bom esse teu blog! parabéns! é sempre bom fugir das obrigações que a vida nos joga e ter um espaço para compartilhar o que nos passa pela cabeça...embora seja a última coisa que faça em meu blog ha ha...mas admiro a diversidade!

    ResponderExcluir