Psicoterapia, sim! :)

21:00


Acorda, come, trabalha, engole sapo, não entende o motivo de tanta agonia no peito, chora, desconta a raiva nos outros, alterações no humor, se sente humilhada, comparada, triste, viaja, feliz, doida, se incomoda com o corpo, pede ajuda, indiferença, risada, paga conta, tem vontade de sumir, corre, come, sexo, vomita, tem nojo, dorme. Se eu pudesse resumir a minha vida nos últimos anos, seria assim. Obviamente com intervalos de pequenas alegrias que hoje sei, mais me confundiam e cegavam do que me tiravam da lama. E o que mais me orgulha é olhar isso e ter a sensação que faz tempo demais. "Isso também passa" :)

O que eu posso dizer muito claramente é que a psicoterapia me tirou de um estado de letargia. Sei que metade desse trabalho aí exigiu iniciativa minha e uma força de vontade monstra que eu arranquei de um porão que existia em mim. Mas eu sei que a outra metade foi por causa dos encontros semanais dentro de uma sala onde eu mal chegava e já começava a chorar como quem pede socorro a alguém. Desde março visito a psicóloga e não tenho a menor ansiedade ou vontade de me "livrar" disso.

Imagine que durante toda a sua vida uma sequência de pessoas escrotas foi pisoteando no que de melhor existia em você - e o pior, você ter a consciência de ter permitido que isso acontecesse! - até que tudo virasse uma massa concretada que você, por vergonha ou medo, foi escondendo láááá no fundo da sua alma. Foi isso o que aconteceu comigo: eu tinha vergonha de ser feliz, faladeira e elétrica como eu sempre fui e, espero, vou morrer sendo.

Eu tinha medo de me sentir completa. Eu não achava normal que eu pudesse ser o que eu quisesse, do jeito que eu quisesse e o "pior", alcançando tudo isso de um jeito honesto. Eu sentia culpa por conquistar o que eu buscava. Tinha medo de conseguir o que tenho hoje (coisas bobas, materiais ou não, mas que dentro do meu universo, me trouxeram a paz que preciso pra viver). Eu não sei explicar como vivi os meses de março, abril e maio de 2016. Mesmo já na psicoterapia foi muito difícil. Se alguém me pergunta o que eu fiz, eu nem sei falar ao certo.

Precisei chegar até a minha pior versão, olhar bem de frente para aquela merda toda para somente assim usar a raiva daquilo tudo para chutar o que me machucava. Durante três meses eu vaguei. De verdade, eu batia nas coisas e pessoas como um balão solto dentro de um apartamento. Foi como se eu tivesse um trauma. E foi... um trauma tão do cacete que apaguei tudo do HD. Eu respirava, comia o que era preciso pra não perder mais peso, tentava brincar com a cachorra e a gata que moravam comigo e tentava não deixar minhas irmãs e meus pais com uma preocupação que eu julgava ser desnecessária, muito embora quisesse a atenção deles. Confuso.

Mas sei que eu fiquei de pé. Enfrentei a morte, a dor, o deboche, o ser chamada de doida ali, o "você é estressada demais" aqui, o "tu precisa de um psicólogo" no tom mais pejorativo que você possa imaginar. Enfrentei a indiferença, coisa que eu não desejo a ninguém, de coração. Matei o silêncio e a vergonha de falar sobre o que me magoava. Em todo tempo pedi socorro a quem me feria e até perceber isso foram anos de agonia, confusão mental e a autoestima lá no lixo. A boa notícia é que isso tudo não me matou e sei de onde essa força vem: de mim. Apesar de tudo eu tenho uma vontade imensa de "comer" a vida, de tentar, me apaixonar, errar e pular nos abismos quantas vezes for preciso.

Durante três meses de cegueira total consegui dar minhas aulas com a mesma dedicação e amor que faço hoje, quando enfim me considero salva, lúcida e feliz. O jornalismo me deu a força que eu precisava, a minha profissão sempre foi o meu ponto de fé. Mas sabe Deus como eu conseguia estudar e perdi as contas de quantas vezes me sentia otária de ver as páginas dos livros molhadas de tanto chorar e sem saber como administrar a dor, sem mapear direito onde doia mais. Bendita a hora em que finalmente decidi pedir arrego e liguei para a psicóloga.

Liguei envergonhada e quis me fazer de forte inúmeras vezes mas era só sentar ali de frente para ela e eu começava a chorar feito criança. E o que mais eu poderia ser ali, naquela hora? Não mais do que uma guria de olhos arregalados, com medo de mim e do mundo. A primeira vez que saí de uma sessão sem chorar foi mágico, comemorei. Eu me sentia livre! Cada vez que ouvia um "Parabéns, você abriu uma janela", era como se eu tivesse levando uma descarga de energia. A cada "estou orgulhosa disso" ou "que bom que você conseguiu fazer aquilo" eu me via na obrigação de sentir mais e mais vida.

A psicoterapia me ajudou no processo de não me acovardar diante do que me mete medo ou do que me dói. Me ajudou a olhar nos olhos do que e de quem me fere com a mesma serenidade que olho para quem me ama. E sim, eu também sinto raiva, rancor e tédio, como todo mundo... sou humana, como você. Também julgo as pessoas, "mango" do povo e sinto remorso por isso de vez em quando. Me sinto idiota, sinto pena, fico ressabiada, abusada, grito, bato porta, choro e fico feliz por conquistas alheias. Sou egoísta e despeitada também, quando tô disposta a ser ruim eu sou o cão! Me arrependo depois? Depende. Sou gente e carrego toda a confusão que essa palavra pode ter.

É disso (e de tantas outras coisas) que falo um bocado nas sessões. Os encontros com a psicóloga me ajudaram a entender que a responsabilidade sobre a vida é minha e não faz muito sentido culpar mais a ninguém senão a mim mesma diante das escolhas que faço. Claro, em algumas situações é preciso perceber que acontece violência e falta de caráter de maneira gratuita, e aí? Diante disso ao invés de tentar bater de frente eu apenas desvio consciente do meu movimento... e só.

Definitivamente não me considero uma pessoa pronta e acho idiotice imaginar que alguém no mundo seja. As pessoas fingem domínio sobre si mesmas o tempo todo, e nem acho isso de todo ruim, cada um que seja responsável pela própria representação diante do outro. O que eu quero é ter consciência de quando estou me doando verdadeiramente e de quando estou cumprindo um papel social. Saber o que somos e o motivo de agir de tal maneira nos dá mais honestidade no existir.

É provável que eu mantenha o tratamento (nem sei se devo chamar assim) por um bom tempo por um motivo muito simples: mesmo sabendo da brevidade da vida, eu quero terminar essa existência de consciência tranquila e com a minha melhor versão. Se eu consigo? Isso é problema meu... e muita gente não faz ideia do quão confortante é saber disso. Somos problema nosso. Se cada um tivesse ocupado em corrigir a si mesmo talvez sobrasse menos tempo pra machucar quem atravessa a nossa vida. :)

I got my smile.

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3 comentários

  1. Lembro do natal passado, sentadas ao redor da sua mesa tomando vinho e comendo queijos, eu falava que estava fazendo terapia e sobre como era doloroso e maravilhoso ao mesmo tempo. Quem gosta de ser confrontado, afinal? Você disse que tinha vontade em ir no psicólogo e que um dia, talvez, fosse mesmo... Fico feliz por você, Liginha. Às vezes, precisamos de uma ajuda profissional mesmo pra guiar o caminho certo. Foram 7 meses de terapia e hoje consigo aceitar toda a raiva, frustração e desafio que aparece, mas de uma maneira bem sóbria e mais leve.

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  2. Sim, super! É um processo muito íntimo mas que faz toda a diferença. Dói um pouquinho mas a recompensa é ter uma felicidade sentida com mais honestidade e lucidez. Muito bom! <3

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