São Luís: cores, ladeiras e silêncio

20:21


Encontrei a passagem em promoção para os dias 26 a 30 de maio de 2016, depois de olhar o calendário da faculdade onde eu trabalho: era feriado, eu não daria aula... simbora! Depois disso foi só alimentar uma vontade doida de inspecionar se tinha oleosidade de testas na janela do avião para poder pregar a minha venta em paz lá. Ficar vendo as nuvens, lendo as revistas que distribuem durante a viagem, ficar toda matutinha e imaginando o cheiro de uma cidade diferente. O destino é São Luís do Maranhão! "E tu vai viajar sozinha?", já fui e já voltei. 

Cidade colorida, sotaque bonito mas uma tristezinha ao ver casarões abandonados e o turismo ainda mambembe. Se eu voltaria? Sim, pois não conheci os lençóis maranhenses (#coidipobi, só conheci as fronhas!). Meu passeio basicamente se concentrou no Centro Histórico, depois visitei a cidade de Alcântara e a Praia da Raposa.


Mais uma vez a escolha de hospedagem pelo Airbnb foi acertada: Casa Frankie! O lugar era tão lindo que eu não queria sair de lá. O espaço parece que conversa com você, uma paz enorme. Foram três noites (e ainda ganhei uma pois cheguei na madrugada e ele não me cobrou) bem no meio do Centro Histórico a um preço de R$ 268,00. Ótimo, coube certinho no orçamento. E a história de lá é massa! 

Um dinamarquês que trabalhava no mar (era quase marinheiro) acabou chegando em São Luís e se apaixonou pela cidade e adquiriu esse casarão que antigamente funcionava como um bordel. Mas nem esquenta, a energia é ótima e o lugar é mágico, mesmo! Ah, e eles ainda enviam táxi pra te buscar no aeroporto. Realizei um sonho: sair e ter alguém me esperando com uma plaquinha com meu nome! Ô, gente... pra quem viaja só isso dá uma sensação de acolhida tão boa. :)


Os quartos tem escrivaninhas e móveis rústicos (com cheiro de madeira bem forte, mas que não incomoda). Confesso que na primeira noite eu não consegui dormir pois tudo me lembrava o sítio do meu avô. O banheiro é compartilhado, mas achei tudo muito limpo, super de boa! Chuveiro com água quentinha para quando eu chegava no final da tarde cansaaaaada de bater perna, uma gatinha vive lá e parece que você tá em casa. E o melhor de tudo: a localização! Fica na Rua do Giz (Rua 28 de julho) e lá tem pizzaria, caixa eletrônico pertinho e fica muito próximo do Mercado das Tulhas. Porém-contudo-perainda: de maneira geral me senti super insegura na cidade. :(  

Apesar de estar tão pertinho de tudo, caminhar à noite pelo Centro histórico é perigoso e lá todo mundo faz questão de enfatizar: "principalmente se você for mulher". Putz! Eu já estava com o espírito meio baldeado, foi mesmo na época da notícia punk da menina vítima de estupro coletivo e isso tudo me deixou com um mal estar grande, aquela falta de fé, sabe? Sei lá. Dava 18h e eu já estava dentro do quarto escrevendo ou então na sala do Casarão conversando com minhas irmãs pela internet. Ou seja, vida noturna: não vi, não sei. E também nem estava no clima, eu precisava dormir-calar-dormir, ficar em silêncio e matutando pensamentos e nisso a hospedagem me ajudou muito! :D


Caminhei muito pelo centro histórico. Topadas aos montes, ladeiras, casarões que mereciam horas para apreciá-los e aguentei de bochechas vermelhas umas cantadas idiotas que me davam embrulho no estômago e aumentavam o meu medo de estar só. Tanto prédio, tanto azulejo bonito, tanta cor, tanto abandono. Era muita coisa para captar e confesso que me bateu uma ansiedade grande.

Artesanato e comida
Foram três dias caminhando pelo Centro Histórico e devo dizer: horário de abertura de lojas, barraquinhas de comida e restaurantes? Ao Deus dará, mesmo. "Às vezes eu abro às 8h, tem dia que é de 9h, de 11h..." me disse uma das proprietárias de uma loja de artesanatos. Então nem saberia como especificar aqui um roteiro certinho, o negócio é ir e pronto... reza pra ter lojas abertas! Mas percebi que no geral é sempre depois das 9h e quando bomba mesmo de visitação é no finalzinho da tarde. 

A Casa das Tulhas é legal mas confesso que esperava mais. Eu sei, seeeei que é estilo "mercadão" mas achei que faltou brilho. Foi lá onde eu tirei essa foto aí de baixo, essa bebida é a Tiquira mas como não estava muito na sintonia, acabei não experimentando. O espaço é bacana para quem vai comprar lembrancinhas, os preços das peças variam de R$ 5,00 a R$ 80,00 e tem muita variedade. 


Uma coisa que não tem como não perceber é a relação que o pessoal lá tem com a música. Pouca gente nas calçadas mas por cada rua que eu passava parecia que os prédios falavam: saiam das janelas, das frestas das portas e de onde tivesse buraco possível... música, muita! Reggae, MPB, batidas tradicionais, enfim. Só não ouvi forró, o que era engraçado pois a cidade estava toda enfeitada com bandeirolas do São João. Foi aí que me dei conta de que lá o que pega mesmo é o Bumba-meu-boi, que inclusive tive a chance de assistir a uma apresentação e caramba, é realmente contagiante! Ah, e a bebida oficial é o Guaraná Jesus, um refrigerante que é cor de rosa, haha! :D 


Há muita falha no quesito "receber turistas". A impressão é a de que a população em geral, os moradores em si, são super amigáveis e curtem ajudar. Mas é comum (ou pelo menos comigo foi) ser mal atendida em bares, restaurantes, nas lojas de artesanato, nos pontos turísticos. Falta informação, o setor turístico é explorado de maneira assustadora e pouco organizada, em muitas situações, amadora mesmo. Mas calma aí que também tive experiências boas com o pessoal de lá. 

Se o assunto é Serviço de Táxi, recomendo fortemente o Gilson (98 98826-8554). Colei nele desde o minuto que ele me pegou no aeroporto e achei massa a honestidade e preocupação comigo. Marcava tudo por WhatsApp e ele estava pontualmente nos lugares marcados, tinha dicas de passeios, dava orientações... perfeito!


Gastronomia: pra vegetarianos é dose!
Quando eu comentava com as pessoas que estava indo para o Maranhão todo mundo falava do quanto a gastronomia de lá é rica... em frutos do mar é mesmo! Aí deu ruim pra mim. Arroz de Cuxá? Não provei pois tinha camarão. Tortinhas? De caranguejo, não dava. E aí que fui catando opções, duas deram muito certo e uma deu bem errado, bora lá. 

Um lugar que curti bastante foi o Cafofinho da Tia Dica. Fica em uma das ruas transversais à Rua do Giz (é essa foto acima, mas na hora em que fiz a imagem o lugar estava fechado). Lá tem uma coisa que eu curto muito: mesinhas na calçada. Pronto, paixão à primeira vista. Me sentei, fiz o pedido (Risoto Vegetariano a um preço de R$ 37,00), tirei o caderninho da bolsa, meti o pau a escrever o que eu sentia e pedi uma cerveja para esperar o prato. Escrevi, escrevi, ao final da garrafa já estava um pouco tonta mas o calor era tão grande que quando o prato chegou, acabei pedindo outra e fui... garfada por garfada com um misto de curiosidade pelas conversas nas mesas ao lado, alegria um pouco culpada e foi nessa hora que parei para não me cobrar tanto. Ri sozinha, estava feliz por alguns minutinhos, o peito não doeu tanto e ufa... parecia que agora, sim, eu estava viajando.


À noite tem um lugar muito bom pra jantar (e por sorte exatamente na mesma rua onde eu estava hospedada!). É a La Pizzeria. Preço justo e comida vegetariana já no cardápio, evitando o constrangimento do "pode fazer essa daqui sem a carne?". Ótimo, já fui entrando toda feliz e até pedi uma cerveja pra comemorar o achado. O ambiente é super agradável, tocava música em volume normal, tem uma iluminação bacana. A pizza enoooorme com dois sabores vegetarianos ficou por R$ 48,00. 

Além alegria, lembro da sensação que tive nesse lugar. Tocava uma música de Lulu Santos quanto eu finalizava o jantar ("Eu te amo calado como quem ouve uma sinfonia de silêncio e de luz", putz, arrepiou tudo!) e entrou um casal acompanhado do filho adolescente. Olhei para eles e ri: como é bonita a calmaria da normalidade. Eles ficaram me olhando enquanto eu escrevia, era como se o prato que estivesse vazio do outro lado da mesa denunciasse a minha solidão, e uma espécie de expectativa era gerada pelo garçom. "Está sozinha?" perguntou ele duas vezes. Respondi que sim e fiquei por fora, dei uma golada na cerveja e nessa hora senti vontade de me teletransportar para o meu apartamento, para a minha cama e dormir agarradinha com Marieta (minha cachorrita) e Violeta (minha gatinha). Senti até saudade do cheiro dos pelinhos pretos delas. :)

Um lugar pra fugir
Tive uma experiência muito ruim com o Restaurante D'Antigamente, no Centro Histórico. Entrei lá numa tarde chuvosa de sábado, depois de ter feito um passeio até Alcântara. Ao entrar no restaurante limpando meus óculos que estavam com as lentes cheias de pingo d'água, fui tateando um lugar para sentar. A garçonete que ali estava não me respondeu nem onde estava o cardápio quando eu perguntei. Apontou com os lábios a direção e começou a chatice. 

Cerveja servida em copo molhado (que raiva que eu tenho de copo molhado, sempre fica um cheiro ruim), garçom que só veio à mesa depois de eu muito dar cá-mão, atendimento com gostinho de má vontade. Comi um macarrão com molho branco (R$ 32,00 o prato) e honestamente não compensa. Dica? Atravesse a rua e coma numa barraquinha chamada O Rei do Beiju, são tapiocas recheadas com generosidade e a um preço justo. E para quem não come carne, é uma opção bem econômica também. :)


No final das contas curti muito a viagem, super serviu para juntar pedaços de esperanças cintilantes no meu peito e já não vejo a hora de fazer um próximo passeio... é como se nesses momentos eu me desse conta que, de fato, a vida vale muito a pena e melhor ainda é saber que cada detalhe da viagem veio de um sentido maior: o meu momento... a possibilidade de trabalhar com o que amo, ter tempo (tempo! Putz, eu sonhei tanto com isso) e ter me encorajado para me jogar sozinha em outra cidade mesmo quando  meu juízo e meu coração estavam tão magoados. Foi um alívio ser honesta comigo e São Luís foi um ótimo exercício de calar-pensar. :)

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3 comentários

  1. ligiaaaaar! tu nem trouxe tiquira pra mim! aaarf. tiquira tão ruim mas tão bom :~

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    1. Num dá pra ficar com raiva de tu não, besta! Simbora beber no PP mesmo a velha cachacinha de sempre :D

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