...cold to the human touch

08:00


Olhava pra o teto e segurava o choro. Sem querer parecer patética acabava sendo escrota. Debaixo daquele corpo pesado sentia toda a imundície da falta de amor próprio. Aguentava. Tinha nojo mas achava que de todas as coisas que a fodia, aquela ali dava até para suportar. Tinha medo de um monte de coisa e achava que dos males, esse dava para aguentar só mais um pouquinho. Devagar. Assim... pronto!

Tinha raiva do cheiro dos cabelos que sabia, só  foram lavados no dia anterior. Tinha nojo de todas as mentiras que ela engolia, do olhar vazio, da culpa, das comparações. Tinha ódio de ser chamada de doida e estressada e depois estar ali, mansa e vulnerável. Chorava. Doía. Machucava em um bocado de canto e aquele ali, naquela hora, era o que menos importava. Sentia que tinha que dar aquilo mesmo pois o resto (as coisas realmente importantes, que estavam por dentro, as tentativas, os olhares suplicantes e pedidos de socorro) já estava podre mesmo e ninguém ia conseguir ver.

Pensava tudo isso olhando fixo pra o teto, achava qualquer ponto de luz no escuro e olhava até cegar. Respirava, prendia uma das mãos no lençol, se segurava, mordia os lábios com força e tentava esquecer a quentura sebosa que a paralisava. Pensava na cachorrinha que a esperava do lado de fora, no quanto ela merecia mais a sua companhia. Ela olhava como quem entendia o pedido de socorro enquanto fechava a porta e se despedia, sabia que a dona não estava feliz e se compadecia soltando grunhidos na porta. Horrível!

É incrível como prazer e desespero podem ser facilmente confundidos, no escuro ninguém vê mesmo, nadinha! Queria correr. Queria o quarto só pra ela e um abraço que a tirasse daquele inferno humilhante. Queria ter coragem na hora certa. Queria um pouco de silêncio e não ter a vergonha de ser o entulho de traumas que enxergava toda vez que passava pelo espelho. Não tinha nada disso, é muito! Pedir qualquer migalha de respeito para quem está cima de você e não percebe o oco no seu peito é burrice.

Tinha raiva da mancha que ficava no travesseiro, das conversas que fingia não ter lido, dos elogios que nunca eram para o corpo dela. Era amorfa, vista como coisa, detestava a nudez no claro, tinha vergonha, medo e trauma das imperfeições, das dobrinhas na barriga, dos peitos arrepiados de frio, do pé feio e das pernas roliças e um pouco moles, dos sinais nas costas. Mas era o que tinha. Era o que conseguia deitar na cama todas as vezes que tentava vencer a timidez monstra que a consumia. Pensava no quanto aqueles minutos seriam insuportáveis, na vontade urgente de se molhar no chuveiro e limpar tudo, dormir depois de comer alguma coisa doce. Ficar quentinha debaixo do lençol como quem se recupera de uma doença.

Quase imóvel, nem conseguia mexer os quadris e era criticada por isso. Havia quem soubesse fazer melhor (e esse recado ela entendia muito bem). Esse parecia não ser o seu maior talento, era manhosa e envergonhada demais pra isso. Mas sabia... É como fazer baliza com um fela da puta gritando "vem, vem, esquerda e desfaz". Agonia, vamos sempre estancar o carro. Sempre vamos estancar a nós mesmos quando nos julgam. O julgamento paralisa todos os músculos, a vontade é de não existir. Fria, doente, distante. Gemia por obrigação e talvez até por pena, outras vezes por dor e autopiedade, achava que aquilo tudo (ou melhor, aquilo nada) era o que ainda fazia com que suportassem o desespero de ver tudo ruindo. Não era humano. Nada sem respeito e alma presta, até pra putaria é bom ter um tico de consideração, sabia? Dá mais honestidade.

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2 comentários

  1. eu tava despreparado e levei no meio da caixa dos peito. daqui do chão é meio difícil de digitar mas né... ok. vida que segue

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