É quase ver um morto :(

11:17


Era uma manhã de domingo e a sensação que bateu foi a de que eu estava em uma cena de crime. Sério mesmo, tipo aqueles assassinatos que comovem as pequenas cidades. Muita gente ao redor do corpo, o cadáver ressecado ao sol, o sangue coalhado fazendo poça na rua, olhares incrédulos. Assim era a impressão de quem se aproximava para ver a situação do Açude Epitácio Pessoa, o Boqueirão – mesmo nome do município que fica localizado na região do Cariri da Paraíba. O lugar que abriga pouco mais de 18 mil habitantes guarda também um dos mais importantes reservatórios do Estado, responsável por abastecer 19 cidades.


Mas àquela altura, quem fincava os pés no que chamam de ‘balde’ do açude só conseguiria ver um morto com boias em suas veias frágeis, equipamentos sugando o resto de sangue que lhe restava. O atual sistema de captação foi uma alternativa para não estancar de vez a distribuição no abastecimento. Em julho de 2016 Boqueirão alcançou a lamentável marca dos 8% de sua capacidade total, resultando em sistema de racionamento nas cidades que dependiam diretamente dele. Para registrar as imagens que ilustram essa reportagem, fizemos um longo percurso que – na época de cheia – seria impossível fazê-lo a pé. Caminhávamos esmagando conchas e fincando o pé onde deveria ter água. Muita! Mais precisamente 18 metros acima de nossas cabeças. Mas naquele dia só existia planta queimada de sol, capim e lama que engolia nossos tênis velhos.


O restaurante Margem das Águas além da clientela, também perdeu o sentido da alcunha. Não há água para morar ali, a margem foi pra longe. O lugar que costumava ficar cheio já a partir das 7h da manhã agora mais parece uma festa que está chegando ao final. Quando chegamos o garçom ajeitava as mesas com um olhar perdido que nos comoveu. “A essa hora eu não deveria nem estar arrumando as cadeiras, já nem havia mais canto pra o povo sentar”, diz ele enquanto checa no relógio: era 9h e apenas um casal chegava acompanhado de duas crianças. Fez questão de se encostar na sacada do restaurante e dizer que era dali onde ele e os funcionários pulavam direto para dentro do açude. “Quando dava cinco da tarde a gente fechava o bar e ficava aqui. Pulava daqui mesmo”, diz enquanto olha a distância que a água está dos nossos olhos.


Saindo dali e caminhando em direção a um cemitério de barcos encontramos o pescador Paulo Sérgio Firmino da Silva, de 34 anos. Pintava a sua canoa e fingiu não perceber a nossa presença até que explicamos o motivo da nossa aproximação. Não parou um minuto a sua atividade e enquanto a canoa ficava preta de tinta ele contava que tucunaré, traíra e tilápia eram os peixes mais encontrados por ali. “Na época boa a gente tirava até cinquenta quilos pescando de rede. Hoje se tirar dez é muito, não tá dando nada”, diz enquanto está de cócoras deslizando o pincel. “É tão pouco que o povo agora tá pescando de anzol”, finaliza como quem não quer falar muito.


Pesca de anzol é mau sinal para quem vive de tecer redes. É o caso de José Marques do Nascimento. Na vila de pescadores atende apenas como “Deca”. Aos 55 anos, diz com fala rápida que “não tá dando peixe e o povo fica desgostoso”. Deu para perceber que ele fica desgostoso também. Uma única rede pode levar até um mês para ser tecida por completo até ser vendida por R$ 60,00. Sem água e sem peixe, a atividade que era considerada tradicional na vila de pescadores passa a perder o sentido. E seu Deca se perde um pouco também. “Não tem gente nem pra pedir conserto de rede. Dependendo da empeleitada eu cobrava dez reais, mas agora que o açude tá pouco tem pouco consumo”, diz. Sem peixe pra torar redes, ele não vende e elas se amontoam em um dos quartos da casa.

Amontoado também de embarcações. Além das canoas que são engolidas por mato na beira do açude, é possível ver como a seca engoliu a movimentação na única marina existente na cidade. O empreendimento conhecido como “Biu da Lancha” é do comerciante Severino Xavier da Silva, de 52 anos. Ao todo são mais de cinquenta lanchas e jet-skis parados no galpão, acumulando poeira e esquecidos pelos donos. “Antes quando era fim de semana a gente botava 20 embarcações na água, hoje se a gente coloca três é muito”, diz. Só em precisar reconstruir o píer para dar passagem às lanchas, muitos moradores simplesmente desistem.


O desânimo deu à cidade uma aparência fantasmagórica. A última vez que os moradores viram o açude sangrar – atingir a capacidade máxima – foi em 2011. O “carnaval molhado” era uma das atrações turísticas da cidade, salva-vidas eram providenciados para atucalhar quem usava lanchas e mergulhava açude adentro. De vários pontos da cidade era possível enxergar a imensidão de água, por isso o estranhamento de Aliete Pinto ao sentar na varanda e ver só terra.


Dona de um restaurante, ela conta que nem gosta de olhar tanto em direção ao açude. “Faz cinco anos que eu guardei a minha bomba d’água”, diz ela como quem comenta uma briga perdida. A mulher que mora há poucos metros de Boqueirão depende hoje de um carro pipa para abastecer a cisterna. A água chega quinzenalmente em um caminhão que levanta poeira pela estrada. “Tem domingo aqui que eu só vendo oito almoços, o movimento caiu demais”, diz ela encarando duramente o açude, como quem enxerga ali um velho amigo que a magoou e fugiu carregando com sigo um pedaço de sua autonomia e história.

E esse olhar ressentido parecia se espalhar como doença entre os outros moradores, que já arredios por causa da presença constante de jornalistas por aquelas bandas, já não queriam dar notícias do morto. Cansados de descrever como foi o crime, eles só queriam saber agora o dia do enterro para velar o defunto em paz e só!

FOTOS: Kalina Aires
TEXTO: Ligia Coeli
PUBLICAÇÃO ORIGINAL: aqui e aqui. :)  //

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1 comentários

  1. Texto fantástico! Parabéns por relatar tão poeticamente a situação que assola o Açude de Boqueirão.

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