solitude is bliss :)

13:13


Eu gosto de lembrar as coisas, situações e pessoas que mudaram a minha vida e para chegar até a história de como nasceu o meu lar, em sequência posso dizer: começou com um ex-namorado que preencheu meu cartão do vestibular (tenho esse pedaço de papel guardado até hoje, obrigada!), os amigos que fiz na universidade, meus companheiros de redação que me fizeram jornalista e por fim, meu pai, que me emprestou a grana para dar entrada no que eu chamo de casa.

Obviamente minha mãe, irmãs e tias me ajudaram um bocado e nesse livro o que não faltam são páginas mas para encurtar a conversa, eu com certeza grifaria em neon essa sequência aí que acabei de dizer. Foi tranquilo? Nem um pingo! E por isso foi melhor! ;) Para todo lugar que eu olhar dentro do Jambalaya consigo ver uma caneca, uma cortina, uma toalha, coisas que as pessoas foram me dando e foram se encaixando nas paredes, em cima dos móveis. Mas a melhor parte é me sentir dentro de um cenário que eu mesma construí ignorando toda a imbecilidade, falta de respeito ou coisa ruim que tenha atravessado o meu caminho.

Por aqui eu sou maioria. Em tudo! Nas fronhas que eu comprava toda vez que ia ao shopping, nos móveis que uma amiga minha projetou, nas cadeiras de grupo escolar que foram pintadas de branco, na cama que era de uma tia minha, na sanduicheira azul, nos copos coloridos e na geladeira vermelha cheia de adesivos e brebotos. É o meu mundo, minha história e aqui dentro ninguém me magoa. Na vida e na minha casa, quem me fere não recebe convite pra voltar e assim sigo sã e salva, afastando educadamente (quando consigo, às vezes é no grito-tiro-porrada&bomba mesmo) o que não me edifica.

A grosso modo o caminho começou com uma ingenuidade que ainda me persegue. Achei que poderia traçar uma linha reta até chegar no lugar que a minha imaginação mais gostava quando eu era criança e quase-quase adolescente. Tinha uma cena que eu amava desenhar mentalmente quando eu brincava de ser professora no quintal de mainha. Eu sempre contava à mim mesma: "... aí tu vai chegar em casa depois de trabalhar num lugar que tu goste bem muito, aí vai deitar no sofá e vai abraçar o cachorro e vai ficar tudo bem". Dia desses me entalei de chorar... essa cena estava virando verdade!

Eu não tinha me dado conta da plenitude que era imaginar uma coisa e ir construindo até que ela acontecesse exatamente igual, um sonho que eu tinha se realizava ali. Abri a porta com cuidado, tirei a sapatilha fedorenta e já bem gasta na parte do calcanhar, olhei para os olhos amarelados de Violeta (é uma gata, mas considerei como elemento de cena, hahaha!) e me deitei no sofá aos prantos. Era alegria! Eu estava na minha casa. :)

Isso aconteceu há alguns meses (somente muito tempo depois da compra e de ter dividido o apartamento com alguém) e desde então eu choro de alegria com uma frequência ridícula. Foram tantos traumas, tanta coisa ruim, tanto medo e agora está tudo bem... assusta. Não moro solitária, moro sozinha (com toda a força que isso tem!) e amo estar assim. Mas eu gosto de visita e por isso o Jambalaya (não é o nome do prédio, é apelido carinhoso mesmo) sempre recebe alguém.

Tem minha irmã que sempre vem trazendo algum amigo ou amiga divertida, tem Mayara e Laisa nas noites do pijama, tem alguém que tá precisando conversar e vem aqui só pra dar risada, tem amigo que vem me deixar depois de uma festa, tem gente que precisa fazer prova e de um lugar pra passar a noite, tem mainha que do nada aparece e arruma tudo, tem Marieta (divido a guarda da cachorra com painho) mijando tudo e tem Violeta, a gata-cachorro que eu aprendi a amar. A chave está na mão de quem quer pegar :)


Desde que moro só fico pensando nesse medo que as pessoas tem de existir. Eu tinha e tenho um bocado. Mas me dá agonia, confesso. Se estão felizes, não podem falar senão dá tudo errado, tem que dar uma de blasé, esconder o risinho. E se estão tristes precisam disfarçar tudo o que lhes come por dentro por medo da rejeição. Hômi, tenha um lugar no mundo onde você se sente seguro e isso some! E esse lugar, acredite, não é físico... não é. A compra do meu apartamento foi só uma metáfora para o que eu realmente precisava entender e aprender.

Nesse meio eu tô tentando o equilíbrio mas não consigo dissimular a minha euforia. Eu vivo uma fase na vida que eu chamo de inacreditável. Mas é inacreditável mesmo não por ter coisas pomposas, chiques, luxo, dinheiro ou tudo perfeito. Não é por ter o socialmente aceitável. São coisas muito pequenas. Minúsculas. Eu diria até que microscopicamente mágicas: é fazer um cappuccino à tarde ouvindo uma música legal e comer o resto de soja que a sua melhor amiga deixou na geladeira, por exemplo. Besta, né? Pra mim é um evento e poder enxergar isso é o que me deixa feliz... é não perder o encantamento!

É estar trabalhando no meu quarto e chegar a mensagem de um amigo que escuta algo que que parece comigo*, me manda o link e aquela canção ecoar no apartamento inteiro. É morrer do coração quando a gata se pendura na janela e ficar olhando a leveza dela enquanto o sol bate na minha cortina um pouco suja da sala. É andar descalça usando só calcinha e uma blusa enorme e rir sozinha quando percebe que pode ter alguém no prédio ao lado rindo da maneira como você dança. É dormir suja cafungando o travesseiro ou tomar banho fazendo coreografia para a gata e a cachorra que estão no tapete olhando o quanto você é patética fazendo do xampu um microfone.

É chegar de viagem e sentir o seu próprio cheiro impregnado na toalha e no edredom. É ter medo de dormir sozinha quando alguém fala de alma e acabar deixando a luz do corredor acesa. É ter alguma tristeza bem grande e não precisar disfarçar pois não tem ninguém mais na casa naquele santo momento e aí é só começar a chorar no quarto de porta aberta e tudo certo, sem se preocupar com alguém que vai chegar. É ficar berrando palavrão no travesseiro quando tem uma crise nervosa enquanto a gata não tá nem aí e fica fazendo massagem na sua bunda e ronronando. Existir com consciência... é isso o que tem acontecido comigo e ter essa sensação de pertencimento à mim mesma me faz chorar de alegria.

É a primeira vez na vida que sinto que as lágrimas, enfim, mais enfeitam do que enfeiam meu rosto. Uma letra, uma decisão, um sonho e tudo muda. Agora eu sei que não tenho uma casa. Eu tenho mesmo alguma coisa explodindo dentro de mim e que "apita" todas as vezes que eu sinto que não é por ali que eu quero seguir. A casa foi só um impulso, uma coisa real que me fez perceber coisas mais subjetivas e ela existe de verdade mesmo dentro de mim.

O apartamento? Totalmente mutável, extremamente temporário e que qualquer um pode me tomar. Mas o processo íntimo que envolveu tudo isso e a sensação que ele me causa? Ah, aí pode puxar o freio pois isso ninguém leva... O que passou ninguém muda e o balaio onde guardo as memórias e ensinamentos é inacessível para os outros, ali só quem pode catucar sou eu. Onde moro é só o espaço. Hoje é aqui em Campina, numa rua nem tão bonita mas num prédio que me deu a real sensação de lar... e amanhã? Não sei. Posso perder o emprego, a casa, a saúde e precisar vazar daqui, morrer, sei lá. O que me dá calma é pensar que onde eu estiver, tá bom... eu sei que possuo uma boa, quentinha e deliciosa lembrança para me fazer rir onde eu estiver... com quem eu estiver. E isso, sim, é poderoso! :)

*Esse texto foi escrito enquanto rolava Margaret Glaspy bem alto!

Veja também

0 comentários