Avôhai: e nunca mais eu tive medo da porteira :)

22:18


Quando era mais novo meu avô Zuza selava os cavalos logo cedo. Até hoje eu amo os cheiros das crinas, a aspereza, as bilas grandes e assustadas dos bichos diante da covardia dos homens, a sujeira das botas marcando o cimento queimado dentro da fazenda. Tinha um quarto no sítio do Variado, em Fagundes, onde ele guardava tudo: cabresto, chicote, manta. Era meu lugar favorito nas férias!

Eu enfezava o juízo dele, choramingando, para andar à cavalo. Ainda com os olhos cheios de remela e vestindo pijama, eu ficava fazendo escândalo com minha boca de chichela. Bruto que só ele, me dava muito pra trás mas mesmo assim cedia. Ele colocava na cabeça o chapéu com cheiro forte de suor, rezava com vovó Irene e ia budejando. Depois que vovó morreu ele usa até hoje as duas alianças (a dele e a dela). E chora. Os olhos dele denunciam a falta imensa que ela faz. Não tem nada que preencha. Não tem vergonha de se debulhar em lágrimas na nossa frente. Meu avô e avó eram primos. Vovô "roubou" ela. Ela queria ir e pronto, ele não contou conversa. Acho isso massa: quando se quer algo, devemos ir até o fim, na marra, na raça. Ele foi. Ela queria... e ele foi. Né assim que o amor funciona, não? Vontade e valentia! :)

Ele olha para as fotografias dela com a mesma devoção que olha para a imagem de gesso de Frei Damião e a tuia de santos, foi observando esse olhar que eu aprendi a ler os outros. Eu sei, vovô... eu sei ver dor. Graças a você eu sei quando uma pessoa ri com os lábios, como quem tem uma trombose, e demonstra cratera na alma. Obrigada!

Ele até hoje chamava vovó de "onça" pois ela era braba demais... e ele a amava por isso. Amava Irene por ser quem ela era. Eu também gostava de vovó... ela tinha um dente de ouro, eu adorava vê-la sorrindo e ficar imaginando que ela era gângster. Quando ela morreu, um tempo depois eu tatuei uma caveira no braço e pedi pra o tatuador pintar um dos dentes de amarelo... é o dente de ouro de vovó. Gosto de ser teimosa como ela. Vovó era mandona e tinhosa. Eu também.

Vovô escondia doce no guarda-roupa por saber que ela gostava, mesmo sabendo que ia levar carão. Mesmo sabendo que ela ia morrer com a mulesta da diabetes! Vovô já vendeu papelão, foi vaqueiro, foi corajoso e eu tenho um orgulho da porra dele. Mas nunca digo, fico rindo e calada.

É com esse tipo de homem que estou acostumada. Nem mais nem medo. Você leu certo: medo. Nem medo! Eu amo as pessoas calada, do mesmo jeito que faço com vovô Zuza: contemplo e só. Silêncio, bruta, o afeto não sai, se entranha em mim e me entupo. Vira texto, vira foto mas não consigo humanizar. Um pena... Ele enterrou todos os umbigos dos netos no quintal. Me mostrou que eu tenho pra quem e onde voltar. Sempre! Sem saber ele me ensinou a amar quem tem fé.


Ele me deu o pai que me criou como macho. Se isso é ruim ou bom eu ainda não sei. Uma coisa é certa, eu não seria a mulher que sou hoje se não fosse por vê-los, pois cresci assistindo a agonia dos dois lados da história. Lembro que um dia, ao puxar a corda do cavalo que minha irmã estava, o bicho pisou no meu pé. Um cavalo pesadão com aquela pata véa cascuda destroçou minha unha e eu, com raiva, dei uma tapa na bunda dele e comecei a chorar. O cavalo quase derruba minha irmã. Meu pai viu a cena e eu, manhosa, queria que ele me desse razão e me falasse que nunca mais eu precisaria subir naquele troço em toda a minha vida.

Ele fez o contrário. Me suspendeu, me subindo pelo suvaco, me montou em cima do cavalo, com raiva da minha covardia, e disse que era pra eu perder o medo. Achei cruel na época... eu queria colo e estava montada em cima do feladaputa que me magoou! Hoje acho essa a melhor lição que eu poderia ter naquele dia: bicho que pisa no meu pé eu monto, meto o calcanhar na virilha dele e faço correr. Ou ele, ou eu. Ou o medo dele ou o meu... Para a puta que pariu, que seja, ande!

Eu lembro de olhar pra trás, com medo e raiva da minha unha lascada, lembro de ver a minha irmã confortavelmente protegida na varanda da fazenda depois do susto, mas nunca esqueço da sensação de sentir meus cabelos "avuando" por causa do vento e do trote. Ali, sem saber, eu perdia o medo do cavalo, do meu pai e da vida. Demorou pra retomar essa coragem. Estava dormente... mas hoje ela pulsa mais que nunca na minha titela. Ali eu agradecia ao meu avô por ele ter sido quem foi.

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3 comentários

  1. Meu Deus,Lígia! Publica um livro com seus textos, amo todos! Fico imaginando os desdobramentos da suas histórias. Um dia quero escrever bem assim. Parabéns.
    Geovanna

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    1. Obrigada por ler... de coração! Eu nem sei como agradecer direito, só em poder compartilhar me sinto muito feliz! <3

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